<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-4732245796051481977</id><updated>2012-02-16T22:58:17.408-02:00</updated><category term='Capítulo 3 - II'/><category term='A - Licença'/><category term='Capítulo 1 - II'/><category term='Capítulo 4 - I'/><category term='Capítulo 2 - II'/><category term='Capítulo 3 - I'/><category term='Capítulo 4 - II'/><category term='Capítulo 6 - I'/><category term='Capítulo 5 - II'/><category term='Apresentação'/><category term='Capítulo 2 - III'/><category term='Capítulo 1 - I'/><category term='Capítulo 2 - I'/><category term='Capítulo 5 - I'/><category term='Capítulo 6 - II'/><title type='text'>A Cantina</title><subtitle type='html'>Histórias de vida, morte e ingredientes especiais</subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://a-cantina.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4732245796051481977/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://a-cantina.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>Luciano Bitencourt</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01733890549897470635</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='28' height='32' src='http://bp2.blogger.com/_9d03NFtnhPA/R_UemyLYMFI/AAAAAAAAACA/OjXMN2PhcqU/S220/avatar.jpg'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>15</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4732245796051481977.post-4919061661065470133</id><published>2009-09-20T12:11:00.000-03:00</published><updated>2009-09-20T12:16:30.574-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='A - Licença'/><title type='text'></title><content type='html'>A CANTINA - Histórias de vida, morte e ingredientes especiais*&lt;br /&gt;Autor: Luciano Bitencourt &lt;a href="http://twitter.com/zigbitencourt"&gt;@zigbitencourt&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;Ano de publicação: Agosto 2009&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LICENÇA CREATIVE COMMONS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esta obra é licenciada por uma licença CREATIVE COMMONS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Atribuição - Uso não-comercial - Compartilhamento pela mesma licença 2.5&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Você pode:&lt;br /&gt;- copiar, distribuir, exibir e executar a obra;&lt;br /&gt;- criar obras derivadas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sob as seguintes condições:&lt;br /&gt;- Atribuição. Você deve dar crédito ao autor original.&lt;br /&gt;- Uso não-comercial. Você não pode utilizar esta obra com finalidades comerciais.&lt;br /&gt;- Compartilhamento pela mesma licença.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se você alterar, transformar ou criar outra obra com base nesta, somente poderá distribuir a obra resultante com uma licença idêntica a esta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para cada novo uso ou distribuição, você deve deixar claro para outros os termos da licença desta obra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Qualquer uma destas condições pode ser renunciada, desde que você obtenha permissão do autor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Qualquer direito de uso legítimo (ou fair use) concedido por lei ou qualquer outro direito protegido pela legislação local não são em hipótese alguma afetados pelo disposto acima.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*Os capítulos 4, 5 e 6 ainda estão em processo de correção ortográfica e gramatical. Este texto procurou seguir a Nova Ortografia, qualquer observação, sugestão, crítica ou informação, deixe um comentário ou envie-me um e-mail.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4732245796051481977-4919061661065470133?l=a-cantina.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://a-cantina.blogspot.com/feeds/4919061661065470133/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://a-cantina.blogspot.com/2009/09/cantina-historias-de-vida-morte-e_20.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4732245796051481977/posts/default/4919061661065470133'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4732245796051481977/posts/default/4919061661065470133'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://a-cantina.blogspot.com/2009/09/cantina-historias-de-vida-morte-e_20.html' title=''/><author><name>Luciano Bitencourt</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01733890549897470635</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='28' height='32' src='http://bp2.blogger.com/_9d03NFtnhPA/R_UemyLYMFI/AAAAAAAAACA/OjXMN2PhcqU/S220/avatar.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4732245796051481977.post-5736909789547089438</id><published>2009-09-20T12:09:00.000-03:00</published><updated>2009-09-20T12:10:27.473-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Apresentação'/><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;A Cantina&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Histórias de vida, morte e ingredientes especiais&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Todas as pessoas, nomes, fatos, citações, referências, situações, datas e observações expostas neste texto são reais. Tentei descrevê-las de forma detalhada e precisa. Este trabalho é fruto de oito meses na paciência de ouvinte, de auscultador em conversas informais, colhendo testemunhos presenciais e as tradicionais entrevistas olho-no-olho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Até o momento, uma das mais satisfatórias empreitadas que tive a oportunidade de dedicar-me. Espero ter conseguido transformar esse sentimento em palavras ou quem sabe apenas em uma bela e verdadeira história de vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agradeço, desde já, aos vizinhos, fregueses, amigos e parentes da família Seriacopi – bem como aos próprios – que, em diversos momentos, nem se deram conta de que estavam servindo como uma fonte riquíssima de informações. Em troca, ganharam um eterno admirador e, por que não admitir em público, um grande amigo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;São Paulo, agosto de 2009&lt;br /&gt;Luciano Bitencourt&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4732245796051481977-5736909789547089438?l=a-cantina.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://a-cantina.blogspot.com/feeds/5736909789547089438/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://a-cantina.blogspot.com/2009/09/cantina-historias-de-vida-morte-e.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4732245796051481977/posts/default/5736909789547089438'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4732245796051481977/posts/default/5736909789547089438'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://a-cantina.blogspot.com/2009/09/cantina-historias-de-vida-morte-e.html' title=''/><author><name>Luciano Bitencourt</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01733890549897470635</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='28' height='32' src='http://bp2.blogger.com/_9d03NFtnhPA/R_UemyLYMFI/AAAAAAAAACA/OjXMN2PhcqU/S220/avatar.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4732245796051481977.post-2388662264223148664</id><published>2009-09-20T12:07:00.001-03:00</published><updated>2009-09-20T15:30:13.344-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Capítulo 1 - I'/><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;O Garçom&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;I&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O fato é que naquela manhã de segunda-feira os primeiros fregueses que chegavam à cantina notavam a ausência de Miguel.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora um jovem moreno, forte, másculo e corpanzil, um tanto desatento, atendia e servia em voz baixa e suave – contrariando seu aspecto físico – as mesas compostas no simplório e aconchegante cubículo medindo algo próximo a 20 metros quadrados, encrustado no pé de uma rua íngreme e histórica da capital paulista. Precisamente no final de uma das vias, não principais, de maior extensão da Zona Oeste.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O mês de maio estava prestes a começar. O frio atrasou. Ainda nas semanas anteriores em diversos momentos a freguesia – nova, em particular – confundiu Miguel, em ato contumaz, com o proprietário da cantina.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– O Sr. é o dono? – perguntavam-lhe com frequência quem por ali adentrava a primeira vez. Ao que ele respondia em negativa para depois contar entusiasmado e nostálgico parte da história do estabelecimento, reforçando em demasia o que era aparente e visível na decoração.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Falava o que podia e o tempo permitia, estava treinado em lidar com essa situação, e parecia não se importar nem um pouco com a confusão de propriedades.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Talvez fossem as mesas e cadeiras da marca Rubim, modelo diamante, o forro ora xadrez, riscado ou desenhado de rosas, as referências à Itália e Portugal, o bar de madeira de lei com taças e copos suspensos, algumas garrafas de uísque, vinho, barris de cinco litros de cerveja importada e outras bebidas, ou o clima altamente familiar e amistoso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tudo aquilo era a cara daquele homem que rodopiava de um lado para o outro lançando cumprimentos, sugestões, opiniões e, é óbvio, o tradicional berro em direção à cozinha ao informar o pedido do cliente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Um bife à parmegiana, Dona Sônia! – esbravejava sem melindres com suas cordas vocais fracas e arranhadas.&lt;br /&gt;– Mais um ovo frito e um suco de laranja! – assinalava como sempre seus adendos sem deixar de corrigir às pressas alguns pormenores.&lt;br /&gt;– O suco de laranja é sem açúcar, sem açúcar, Dona Sônia!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O certificado com o Título de Fundo Social do Palmeiras, de 1984, e o quadro com a fotografia oficial do time da Portuguesa, em 1930, ambos na parede de azulejos bege, serviriam perfeitamente de moldura para o retrato vivo de Miguel, outra figura rara dentro das grandes cidades, onde o excesso de culturas muitas vezes dá conta do sumiço repentino de personagens marcantes de seu berço. Seres em extinção.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Semelhantes à foto 3 x 4, preto e branco, que estampa a Carteira de Trabalho do galante. A foto de um moço que ergueu a sua primeira bandeja, ainda desajustado, numa época em que São Paulo não tinha 12,5 mil restaurantes, 52 tipos de cozinhas, 500 churrascarias e 15 mil bares – de acordo com dados do Convention and Visitors Bureau – onde trabalham os, aproximadamente, 300 mil garçons, cozinheiros, caixas e outros profissionais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tudo era diferente. São Paulo também não era a cidade que recebe 10 milhões de visitantes ao ano, nem tampouco a capital sul-americana de feiras de negócios com seus 90 mil eventos anuais ou, então, um a cada 6 minutos. Não existiam ainda as 222 redes de lanchonetes do município, com seus 30 mil empregados, nem a categoria emergente no mercado de garçons: os trabalhadores de &lt;em&gt;fast-foods&lt;/em&gt;. Foi um tempo em que o Sindicato dos Trabalhadores em Hotéis, Restaurantes, Bares e Lanchonetes, o Sinthoresp, era a única entidade representante da classe.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A seleção natural no ambiente dos estabelecimentos gastronômicos foi implacável. Acompanhou diversas mudanças e transformações no mundo real e metafísico. Uma interferência contínua do acaso que determinou a sobrevivência de poucos lugares junto ao desaparecimento de muitos outros. Locais antigos, tradicionais, &lt;em&gt;hypes&lt;/em&gt; ou sob nova direção que, diferentes entre si, guardam semelhanças extrínsecas no quesito empregador atual de uma dezena de pessoas a disputar cachês, extras e ascensão. Só isso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Miguel não, ele reina absoluto. Mesmo contando com a ajuda de terceiros nos momentos de pico, é quem cuida, na condição intransponível de primeira pessoa, do atendimento. E não recebe, evidentemente, gorjetas por isso. E talvez nem concordasse meses depois com a decisão da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara que aprovou um projeto regulamentando os 10% de gorjeta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Tem o que está no cardápio – respondeu ao cliente que insistiu em perguntar sobre o &lt;em&gt;agnolone&lt;/em&gt; com bife na chapa (ou escalopes, nos restaurantes chiques) que comera dias atrás e que não constava no menu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem trabalha no setor sabe o que funciona e o que emperra. Miguel é um desses. E tem consciência de que o certo é trabalhar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O referido projeto é mais uma das tantas iniciativas que vão do nada a lugar algum. Ao taxar os 10% para recolher, em contrapartida, os encargos sociais e previdenciários dos empregados de bares, hotéis, restaurantes, lanchonetes e similares, a proposta afrouxa os diversos elos da corrente. Onera o empregador, estabelece a criação de uma comissão de empregados para efeito fiscalizador, propõe a divisão da graça entre todos os funcionários, além de outros méritos que por si só ganham o desprezo dos supostos beneficiados. Em outras palavras diminui a gorjeta individual de 10% para 8% e impele aquele que honrosamente defende o seu espaço a distribuir os louros das próprias conquistas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– E o Vanderlei? Não devia ter escalado aquele lateral! – diz Miguel com veemência para deixar bem claro qual o tipo de discussão lhe interessa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É fácil entender porque ele é indiferente em relação aos assuntos de política trabalhista dos 10%. A falta da gratificação oficial não o faz perder a classe. Não é com o agrado que ele faz o hábito.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4732245796051481977-2388662264223148664?l=a-cantina.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://a-cantina.blogspot.com/feeds/2388662264223148664/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://a-cantina.blogspot.com/2009/09/o-garcom-i-o-fato-e-que-naquela-manha.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4732245796051481977/posts/default/2388662264223148664'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4732245796051481977/posts/default/2388662264223148664'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://a-cantina.blogspot.com/2009/09/o-garcom-i-o-fato-e-que-naquela-manha.html' title=''/><author><name>Luciano Bitencourt</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01733890549897470635</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='28' height='32' src='http://bp2.blogger.com/_9d03NFtnhPA/R_UemyLYMFI/AAAAAAAAACA/OjXMN2PhcqU/S220/avatar.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4732245796051481977.post-8864531448894720031</id><published>2009-09-20T12:06:00.002-03:00</published><updated>2009-09-20T15:36:05.283-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Capítulo 1 - II'/><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;II&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em Miguel, chamam atenção as unhas bem cuidadas, de quem mantém presença regular na manicure, e também os cabelos grisalhos bem cortados, penteados para trás com gel, e a impregnante loção pós-barba cheirando a &lt;em&gt;patchuli&lt;/em&gt; característica dos fins de semana.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A toalha – na maior das verdades, um pano de algodão – com a qual limpava as mesas e protegia as mãos do calor de pratos e panelas flamejantes, dormitava sobre o ombro direito e de lá saía para retornar em movimentos idênticos aos do &lt;em&gt;nunchaku&lt;/em&gt; em ação nas quais constatava-se a nítida influência dos filmes de &lt;em&gt;Bruce Lee&lt;/em&gt;, a quem Miguel já havia direcionado comentários de admiração num bate-papo informal. Apesar de estar calcado em origem e tradição luso-italiana, assistiu no cinema a estreia de &lt;em&gt;Operação Dragão&lt;/em&gt;, em 1975, pegou sessões duplas e durante boas semanas retornava às salas para conferir, mais uma vez, os golpes do baixinho encrenqueiro. O lutador chinês de kung-fu foi um dos seus ídolos na juventude.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Devoção que só não alçou maiores proporções porque o seu coração estava tomado em completude por outra paixão: o futebol, logo o time da rua Turiassú. Entre as olivas e o macarrão, optou pelo último, no que diz respeito ao trato com a pelota entre quatro linhas. Mas não existia vivalma que ousasse falar mal em sua presença da Associação Portuguesa de Desportos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sincrético futebolístico, eis os meandros de sua fé.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Um nhoque, Dona Sônia! Ao sugo, Dona Sônia, ao sugo!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Miguel apertou por muitos anos a cara atrás dos alambrados do Palestra Itália – o mesmo estádio cuja imagem amarelada de 1942 repousa na parede da cantina onde está o caixa e onde também está o cartaz antigo com a imagem de Jesus Cristo em ilusão de ótica. Acompanhou treinos, jogos e eventos, ao lado de amigos e de companheiros antigos, gente que viveu glórias e derrotas pela equipe alviverde. Inclusive, ele reside exatamente no meio do caminho entre a arena que pertence à sociedade esportiva do seu coração e o local diário de trabalho. Vive religiosamente nas imediações. É filho de Perdizes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sua autoridade tem base nesse histórico. Por isso, sente ter recebido, em analogia, o diploma (sem um único grama de celulose ou de qualquer outra matéria concreta) que lhe garante descrever um pouco de cada fotografia afixada, entre outras, nos cinco painéis enfileirados à esquerda de quem adentra a cantina. Ele pode não ter sido o protagonista em pose, mas com certeza testemunhou &lt;em&gt;in loco&lt;/em&gt; o momento em que se consumou boa parte daqueles registros fotográficos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os mesmos registros que deixam curiosos os que sentam em uma das quinze mesas rodeadas pelo glorioso arquivo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Olha só, é o Márcio Garcia, o Bahuan da novela! – exclamou alegre a garota ao apontar com o dedo fura-bolo para a fotografia do protagonista principal do famoso folhetim televisivo das 21.&lt;br /&gt;– Esse aqui é o Felipe Massa. Mas ele não é são-paulino? – comenta e inquire o amigo junto à mesa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora, depois de seis décadas de existência, Miguel já está apto também a se tornar história. Tamanha identificação com o ofício não haveria de ser resumida em apenas mera passagem como garçom. Mas, se nenhum &lt;em&gt;pixel&lt;/em&gt; dos milhões expostos ao seu redor lhe pertencia, um só único que fosse, melhor seria concorrer ao vivo e em cores, em carne e osso, com todo aquele álbum de imagens. Miguel aplica, mesmo inconscientemente, a máxima: “melhor do que viver a história é fazer a história”. Sendo assim, não perde tempo, trabalha como se estivesse a deslizar num salão em baile dançando &lt;em&gt;Besame Mucho&lt;/em&gt;, é o dono da pista.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nos pés, o mocassim. Nos passos, a cadência, uma ginga cujo balé meticuloso não deixa transparecer quaisquer resquícios de um cansaço inaceitável que seja. Tenta não enxergar a própria corcunda avançar proporcional ao recuo da audição, perda que o faz repetir intermitente a interjeição monossilábica: hein!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É forte, sobretudo. A convalescença é um traço que não exibe. Muito ao contrário. Nem se abala ou enrubesce ao ver um cliente lendo o recado – escrito num guardanapo e preso com tachinhas num painel – assinado por João Cruz, o Zorro: “Poucos sabem trabalhar como você, no bairro”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Datado de 28 de agosto de 1994, a homenagem é à Dorival Seriacopi, este sim o dono da cantina.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Incólume, Miguel ostenta acima dos mesmos lábios que um dia beijaram a taça de campeão do Paulista, em 1976, o típico bigodinho francês, alinhado, com os pelos findos, ralos, brancos e marcando o que outrora fora outro traço característico de sua vaidade. No labor veste jaleco branco Oxford com um par de bolsos na parte inferior frontal e um único no peito esquerdo, onde repousa na transparência do tecido o pente fino que produz seu visual impecável durante os intervalos em que vai ao espelho do banheiro ajeitar os poucos fios que lhe restam na cabeça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Neste bolso, num reforço descomunal de identidade, lê-se bordado em linha azul: Miguel.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4732245796051481977-8864531448894720031?l=a-cantina.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://a-cantina.blogspot.com/feeds/8864531448894720031/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://a-cantina.blogspot.com/2009/09/ii-em-miguel-chamam-atencao-as-unhas.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4732245796051481977/posts/default/8864531448894720031'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4732245796051481977/posts/default/8864531448894720031'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://a-cantina.blogspot.com/2009/09/ii-em-miguel-chamam-atencao-as-unhas.html' title=''/><author><name>Luciano Bitencourt</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01733890549897470635</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='28' height='32' src='http://bp2.blogger.com/_9d03NFtnhPA/R_UemyLYMFI/AAAAAAAAACA/OjXMN2PhcqU/S220/avatar.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4732245796051481977.post-5036080265522398997</id><published>2009-09-20T12:04:00.001-03:00</published><updated>2009-09-20T15:40:05.544-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Capítulo 2 - I'/><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;O Cardápio&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;I&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Noite do dia 12 de maio, terça-feira. O Palmeiras disputa contra a equipe do Sport Clube do Recife uma vaga nas quartas de finais da Copa Libertadores 2009. A partida é no Estádio Pernambucano da Ilha do Retiro, que está lotado. No tempo normal o Sport venceu por 1 x 0, mesmo resultado que o time do Palmeiras fez a seu favor uma semana antes no Palestra Itália. Sem prorrogação, o jogo vai para os pênaltis. Brilha a figura de “São Marcos”, o impetuoso goleiro da equipe paulista que defendeu três cobranças do Leão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na manhã seguinte não se falava noutro assunto na cantina. Entre os torcedores do Palmeiras, é claro. Acreditavam que os dezoito pôsteres da esquadra alviverde expostos na parede à direita poderiam ser acrescidos de mais um: outra foto oficial do time em pose de campeão do mais importante certame das Américas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora, sim, o clima remetia às casas onde é vital o diálogo cruzado entre os presentes com a cacofonia artística da velha &lt;em&gt;tarantella&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em meio ao folguedo, um homem de 30 anos vestindo terno preto, camisa branca e gravata vermelha, chega sozinho, senta-se, consulta o cardápio e pede bife, ovo, arroz e feijão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– E para beber? – pergunta Ana Paula Seriacopi que, desde então, percorre sorridente as mesas da cantina.&lt;br /&gt;– Hum... um refrigerante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Paulinha. Foi assim que um senhor de terceira idade – quarta-feira não lhe é a data costumeira de ir à cantina, preferia às sextas –, camisa esporte, calça jeans e sapato de couro se referiu a ela para pedir picadinho, ovo, arroz e feijão, e um suco de laranja sem gelo. Na mesa dele também saíram outro picadinho, um contra-filé, fritas, arroz e feijão, e um filé de frango grelhado, ovo, arroz e feijão; mais um suco de laranja, uma coca-cola de 600 ml e uma H2O.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Do outro lado um casal, não de namorados, mas de amigos, pediu filés de peixe e uma Tubaína.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ana Paula não anotava os pedidos. Ouvia-os e tratava logo de transmiti-los à cozinha, enquanto Dona Sônia e o novo garçom se revezavam no balcão escrevendo num bloco de papel, com caneta esferográfica azul, quais eram os pratos, as bebidas e as sobremesas a servir. Afinal, aquela seria a referência para a cozinha e também na hora de acertar as contas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nem mal certificavam-se de qual era o pedido, Ana Paula já saía da cozinha com três saladas: uma para o homem de terno preto e gravata vermelha; as outras duas para o casal, não de namorados, mas de amigos. Assim que as deixou com os respectivos voltou com mais duas destinadas à mesa do senhor de terceira idade que a tratara por Paulinha e num piscar de olhos trouxe por fim a outra salada que faltava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– E o Miguel, Paula? Você tem notícia dele? – perguntou um dos convivas do grupo que pediu dois picadinhos, um contra-filé e um filé de frango grelhado.&lt;br /&gt;– Tá bem, tá bem. Falei com ele esses dias, mandou um alô para todos – respondeu com a mesma simpatia e agilidade que recebia mais três clientes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desconsiderando o frio não-presente, pois o calor ainda abrasava, tudo estava exatamente dentro do seu tempo. E registrava-se algumas mudanças.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Além do novo membro da equipe, a cantina parecia conviver com uma nova atmosfera. A música ambiente, por exemplo, oriunda de sintonia à emissora especializada em estilo sertanejo, estava mais alta do que o costume.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com isso, as pessoas tinham de aumentar o tom dos diálogos; as mulheres com seus timbres agudos marcavam o ritmo das risadas; e os homens, com suas vozes graves e nada contidas, se destacavam fazendo do assunto “futebol” o tema mais fácil de ser apreendido durante aquela refeição.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Daí a algazarra no lugar – digna de finais de semana –, a mesma que encontrou o homem de terno preto e gravata vermelha quando chegou e sentou-se sozinho. Ele, nesse exato momento, experimentava a salada. Esta que, por sua vez, é muito simples. Algumas folhas de alface tradicional (não o americano), duas ou três fatias de tomate, uma ou duas de pepino e, às vezes, uma pequena porção de cenoura ralada. É a entrada e ninguém a recusou. Vem num pratinho de plástico ou numa bandejinha de inox. Os condimentos, azeite e outras especiarias ficam sobre a mesa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os sucos de laranja e de limão são naturais e servidos num copo de 180 ml longo, fino e pequeno, acompanha um canudo descartável lacrado. Açúcar e gelo são opcionais. Para aqueles que consomem bastante líquido durante as refeições tudo indica que a melhor pedida seja o refrigerante conhecido por Tubaína e fabricado nos sabores limão, laranja, maçã, guaraná e uva. Engarrafada em recipientes de 600 ml, a bebida é mais barata do que o suco e tem ótima aceitação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fregueses recém-chegados discutiam o cardápio. Ana Paula preparava-se para atendê-los. Duas mulheres vestidas como secretárias falavam mal de outra mulher da empresa. Concomitante, acabaram de almoçar e pediram os doces.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Eu quero mousse de maracujá – disse a moça loira com óculos de lentes retangulares e hastes negras.&lt;br /&gt;– Pra mim também – concordou a morena, rechonchuda, alegre, de cabelos negros, longos e encaracolados nas pontas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim que retornou com as duas embalagens plásticas em forma de círculo contendo o cremoso mousse do exótico e relaxante fruto tropical, a sorridente filha do Sr. Dori apenas deu uma piscadela para o novo garçom indicando-lhe os novos fregueses que estavam na cantina e que deveriam ser atendidos. Uma vez decididos, olhavam para o balcão. Sendo assim, lá se foi o rapagão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desta vez, dois jovens com agasalhos esportivos, de cabelos longos e despenteados. Mais uma vez: bife, ovo, arroz e feijão. Dois! Com fritas, uma Tubaína e dois copos. O novo garçom esperou, ouviu, repetiu o pedido e virou-se para a cozinha. Andou dois passos e parou. Inseguro, retornou e confirmou novamente os dois bifes, ovos, arroz e feijão, com fritas e uma Tubaína. Só então passou a encomenda para a Dona Sônia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela olhou para a mesa e, com a ternura de sempre, cumprimentou os rapazes. Eram de casa.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4732245796051481977-5036080265522398997?l=a-cantina.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://a-cantina.blogspot.com/feeds/5036080265522398997/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://a-cantina.blogspot.com/2009/09/o-cardapio-i-noite-do-dia-12-de-maio.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4732245796051481977/posts/default/5036080265522398997'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4732245796051481977/posts/default/5036080265522398997'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://a-cantina.blogspot.com/2009/09/o-cardapio-i-noite-do-dia-12-de-maio.html' title=''/><author><name>Luciano Bitencourt</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01733890549897470635</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='28' height='32' src='http://bp2.blogger.com/_9d03NFtnhPA/R_UemyLYMFI/AAAAAAAAACA/OjXMN2PhcqU/S220/avatar.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4732245796051481977.post-7093895812125167708</id><published>2009-09-20T12:03:00.002-03:00</published><updated>2009-09-20T15:47:53.451-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Capítulo 2 - II'/><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;II&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quarta-feira nublada, de chuvisco e de feira livre um quarteirão acima. Uma das 900 semanais que acontecem em São Paulo. Morro abaixo descia a água oleosa resultado da limpeza das barracas e da garoa fina. Apesar de tudo, o tempo estava abafado. Respirava-se a distância o cheiro forte de peixe – inclusive um dos &lt;em&gt;pratos do dia&lt;/em&gt; na cantina. Uma mulher de 35 anos, sacolas na mão e aparentemente recém-saída de um consultório pediu o cardápio e viu que – a exemplo da feira – ali também podia-se comer pastéis, outro &lt;em&gt;prato do dia&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Como é o pastel? – perguntou com humildade a freguesa sem conter, no entanto, o seu objetivo de saber de uma só vez quais os sabores, o formato e o custo-benefício da guloseima frita.&lt;br /&gt;– Ó, temos de carne, calabresa, queijo e pizza. É maior que o da feira, dá para um almoço – explicou Ana Paula.&lt;br /&gt;– Me vê um de carne e uma Coca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dentro da cantina acizentava uma penumbra, em pouca luz e com um clima de aconchego. Todas as mesas estavam ocupadas, pois a que permanecia vazia acabara de receber dois outros novos clientes. Antes que pedissem bisteca com couve, ovo, farofa, feijão preto e arroz (completando a tríade de &lt;em&gt;pratos do dia&lt;/em&gt;), o garçom que substituiu Miguel percebeu que eles não eram paulistanos. Pareciam cariocas, mas fizeram menção à Nova Lima e Belo Horizonte, lembraram-se de amigos e circunstâncias passadas nessas cidades. O garçom deduziu que fossem de Minas Gerais em virtude de ouvir o nome de Belo Horizonte, terra do Galo Atleticano e da Raposa Cruzeirense. Na hora que foi entregar a Tubaína eles falavam sobre a cidade de Natal. Ficou confuso, encasquetou-se nos próprios pensamentos e preferiu ficar de olho na dupla que acabara de entrar na cantina.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Oi minha linda, hoje eu trouxe uma coisa especial para você! – disse um homem mameluco entonando um sotaque nordestino.&lt;br /&gt;– Muito obrigada, mas hoje eu tenho muito limão. Lembra que você deixou um monte da última vez? – respondeu Ana Paula atrás do balcão.&lt;br /&gt;– Tá baratinho, pra me ajudar vai – insistiu o sujeito ao tirar do ombro direito os dois sacos de limão sicilianos verdes e reluzentes.&lt;br /&gt;– Paulinha, vou fazer uma graça porque você merece. Esses dois dele mais esses dois meus. Quatro sacos por apenas R$ 4, só pra você! – intrometeu-se o segundo homem, com um olhar malicioso que combinava bastante com o seu chapéu de coco dobrado e com uma leve queda à direita.&lt;br /&gt;– Quatro reais. Tudo bem, me dá aqui, então.&lt;br /&gt;– E mais um cafezinho, pra amargar a boca – disse o primeiro homem separando um copinho de plástico descartável e abrindo a garrafa térmica sobre o balcão.&lt;br /&gt;– Pra mim a branquinha e já corta um limão pra você ver a formosura que eu te arrumei – emendou o pedante do chapéu.&lt;br /&gt;– Vai com calma – disse o primeiro homem antes de agradecer Ana Paula e Dona Sônia e sair da cantina.&lt;br /&gt;– Agora estou realmente com os sacos cheios de limão. Por um bom tempo não vou precisar, se não perde, tá bom? – explicou Ana Paula, enquanto enchia o copo americano de cachaça 51 para o intragável.&lt;br /&gt;– Saco cheio, saco de cheio de limão, ha ha, entendi! Tudo bem, linda, mas ainda não te entreguei uma coisa especial – falou virando-se de costas caminhando em direção à porta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em cima de uma alvenaria rasteira, na entrada, o homem do chapéu de coco remexeu numa sacola de plástico e tirou dois pimentões bonitos e vistosos, entregando-os em seguida para Ana Paula. De supetão ele espremeu as duas partes do limão no copo, mexeu o caldo com a cachaça no sentido horário e mandou tudo numa talagada só goela abaixo. Ela agradeceu disse que gostava muito da hortaliça, que é uma das mais ricas em vitamina C, e os encaminhou para a cozinha onde deveriam nas próximas 24 horas se transformar num condimento saboroso no preparo de molhos para cozidos ou assados. A base de uma receita fresquinha para um dos &lt;em&gt;pratos do dia&lt;/em&gt; de quinta-feira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nas manhãs de feira livre era assim e a dupla fornecedora de limão não era a única. Aliás, às 13h45, já haviam passado os fornecedores de ovos, pimenta e mel – mesmo com esse último se tratando de um ingrediente pouco utilizado na cozinha da cantina.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim como no futebol, uma vida dedicada ao jogo de cintura.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para Ana Paula, era importante saber escambar com os diversos mascates que abasteciam de forma desordenada, mas invariável, a cantina. Era uma espécie de &lt;em&gt;delivery&lt;/em&gt; involuntário. Importantes, indispensáveis, mas em muitos momentos desnecessários. Como no caso dos limões sicilianos. Contudo, naquela quarta-feira a euforia se fazia de tal maneira que até o caminhão da distribuidora de bebidas parou na porta da cantina e descarregou dois pares de fardos de refrigerantes, Coca-Cola e H2O, respectivamente; além de um fardo de água sem gás e outro de água tônica. O funcionário da distribuidora arrancou os fardos do chão, jogou-os nas costas e entrou pelo corredor raquítico – que por incumbência se formou entre as mesas – parando quase dentro da cozinha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dona Sônia assustou-se, Ana Paula não entendeu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Não pedi nada na distribuidora, vocês se enganaram – disse ela dando às costas ao moço muito mais por necessidade em atender os pedidos da casa ainda cheia do que por falta de educação ou nervos (coisas que não se vê no seu cotidiano de trabalho).&lt;br /&gt;– Não é possível, tá aqui a nota – insistiu o sujeito ao que mexia e remexia os papéis.&lt;br /&gt;– Pode olhar, não deve ser nosso – completou Dona Sônia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O moço não acreditou, continuou olhando as notas e afirmando que o pedido partiu dali. Ana Paula ponderou, deveria ser do restaurante em frente, especializado em espetinhos, explicou que aquela quantidade de bebidas não condiz com seu estoque, que é bem menor. Somente após um contato pelo aparelho Nextel com a distribuidora e depois de dar cabo ao mal-entendido, ele se fez por vencido: o pedido era realmente do outro restaurante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A solução do imbróglio era apenas um alívio momentâneo. Se nenhum outro vendedor passasse até a hora de encerrar o expediente, nos próximos 80 minutos, era necessário preparar-se para o dia seguinte quando o fornecedor de queijos, um senhor negro, mais de 50 de idade, num modelo década de 1990 com a bandeira Fiat estacionado do outro lado da rua, adentrava a cantina nas primeiras horas com seus pacotes de parmesão inaugurando novamente a rotina de entregas forçadas à domicílio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na verdade, havia o lugar certo de comprar verduras, carnes e massas. E também bebidas, especiarias e outras mercadorias. Esse lugar era o supermercado, o sacolão, a mercearia, o atacadista ou até mesmo a distribuidora, onde Ana Paula fazia as compras para a sua própria casa. O que significa que os ingredientes utilizados na cantina eram os mesmos levados à mesa da família Seriacopi – inclusive, aqueles via fornecedores matutinos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Idêntica falta de distinção na compra de produtos e mercadorias era gloriosamente empregada no trato com as refeições, pois os pratos lembravam e muito a tradicional “comida das mães ou avós”. Com sabor, tempero e preparo inigualáveis, existe ali uma combinação de simplicidade com uma explosão de paladar. Simplicidade quanto à composição do cardápio (carnes, massas, arroz, feijão, ovo, batata e salada); e paladar quanto ao sabor dos alimentos (sempre frescos, naturais e consistentes). É raro em restaurantes encontrar um arroz soltinho feito na hora, bem como um feijão carioca ou jalo graúdo, bem cozido, suculento e saboroso, com o caldo grosso e com gosto de feijão recém-saído da panela. Na Zona Oeste, é um dos únicos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A concorrência lá, em resposta, ataca pelo viés contrário. Padarias estão com bufês &lt;em&gt;self-service&lt;/em&gt;, &lt;em&gt;fast-foods&lt;/em&gt; pipocam por todos os lados – principalmente nas extraordinárias praças de alimentação –, as &lt;em&gt;temakerias deliveries&lt;/em&gt; fizeram com que os restaurantes orientais superassem o número de pizzarias, isso sem contar os famosos PFs ou PEs (Executivos) que deixam constrangidos – com seu desperdício exacerbado de comida – quem busca apenas uma pequena refeição (característica de consumo que deve ser levada altamente em consideração numa cidade onde os índices de obesidade são significativos e onde os habitantes são conscientes da importância de se adotar hábitos alimentares saudáveis).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não se pode desprezar os vários restaurantes de primeira qualidade nos arredores da cantina, que ofertam pratos de degustação ímpar, contudo, a preços pouco convidativos. Da mesma forma que deve-se considerar que não experimenta-se arroz e feijão similares àqueles servidos no pé do morro. Um arroz e feijão que se destaca pelo uso equilibrado e sensato de sal, alho e óleo. Igual não há.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Convicto dessa premissa, um jovem que frequenta irregularmente a casa pediu o cardápio – já se passavam das 14h e algumas mesas ainda não haviam sido rearrumadas, por isso a falta do menu. Ele não demonstrou qualquer infortúnio com o horário, muito menos sentiu incomodar Dona Sônia, Ana Paula, o novo garçom e a turma da cozinha. Leu o cardápio inteiro por diversas vezes:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(Impresso)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bife, ovo, arroz e feijão&lt;br /&gt;Calabresa, fritas, arroz e feijão&lt;br /&gt;Frango ao molho, fritas, arroz e feijão&lt;br /&gt;Picadinho, ovo, arroz e feijão&lt;br /&gt;Bife à milanesa, fritas, arroz e feijão&lt;br /&gt;Filé de frango grelhado, ovo, arroz e feijão&lt;br /&gt;Contra-filé, fritas, arroz e feijão&lt;br /&gt;Filé de frango à milanesa, fritas, arroz e feijão&lt;br /&gt;Filé à parmegiana, fritas, arroz e feijão&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mousse:&lt;br /&gt;Limão e Maracujá&lt;br /&gt;Manjar&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Suco de laranja e limão&lt;br /&gt;H2O&lt;br /&gt;Coca 600ml&lt;br /&gt;Tubaína&lt;br /&gt;Água&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(Manuscrito)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pratos do Dia:&lt;br /&gt;Filé de peixe&lt;br /&gt;Pastel&lt;br /&gt;Bisteca com couve e farofa&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4732245796051481977-7093895812125167708?l=a-cantina.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://a-cantina.blogspot.com/feeds/7093895812125167708/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://a-cantina.blogspot.com/2009/09/ii-quarta-feira-nublada-de-chuvisco-e.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4732245796051481977/posts/default/7093895812125167708'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4732245796051481977/posts/default/7093895812125167708'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://a-cantina.blogspot.com/2009/09/ii-quarta-feira-nublada-de-chuvisco-e.html' title=''/><author><name>Luciano Bitencourt</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01733890549897470635</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='28' height='32' src='http://bp2.blogger.com/_9d03NFtnhPA/R_UemyLYMFI/AAAAAAAAACA/OjXMN2PhcqU/S220/avatar.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4732245796051481977.post-5362658728799584010</id><published>2009-09-20T12:01:00.001-03:00</published><updated>2009-09-20T15:51:52.140-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Capítulo 2 - III'/><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;III&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já se passavam mais de três semanas desde a última vez que ele estivera na cantina. Não se lembrava de qual era o dia exato da semana, mas não se esqueceu da rabada com polenta a qual teve a grata satisfação de almoçar. Na ocasião, achou que faltou apenas algumas horas a mais de panela de pressão, contudo, aprovou em primeira instância a reprodução quase fidedigna do inconfundível prato de sua infância no interior de Goiás. Voltou para saboreá-lo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Que pena. E qual é o dia que vocês servem rabada? – indagou depois que ouviu a sensata explicação de Ana Paula.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Segundo ela, são dois, três ou quatro os &lt;em&gt;pratos do dia&lt;/em&gt; e a cada dia as receitas são diferentes. Acontece de se repetir na sexta-feira, por exemplo, uma receita de quinta ou terça. Não tem regras, pois depende muito da matéria-prima disponível a partir dos fornecedores à domicílio ou dos que a própria Ana Paula procura. É tudo fruto de alguma oportunidade que ela vê e decide usar espontaneamente na cozinha para os clientes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Por isso, todos os dias temos pratos extras. Às vezes, coincide de você vir e ter rabada outra vez – encerrou a dúvida ao indicar um fígado acebolado que não integrava o cardápio, nem os &lt;em&gt;pratos do dia&lt;/em&gt;, mas que poderia ficar pronto em 5 minutos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao consentir com a sugestão, o jovem começou a observar os quadros, retratos, bandeiras e pôsteres ao seu redor. Se identificou com a foto sombreada da cantora Elis Regina, lembrou-se da sua mãe. Percebeu que a cantina possuía inúmeras diferenças em relação aos outros lugares que ele frequentava na Vila Madalena, em Perdizes, Pinheiros, na Pompéia e no Sumaré. A principal delas é que apesar das paredes abarrotas de imagens não havia uma única indicação da revista Veja recomendando o lugar. Daquelas indicações que padarias e lanchonetes, quando também creperias e bistrôs, fazem questão de emoldurar e apresentar como importante referência de avaliação. Desta forma, concluiu o jovem freguês, ao que tudo indica, o tradicional e respeitável semanário não passou por ali.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Comeu a salada, chegou o fígado acebolado, bebeu a Coca-Cola. Além dele, mais duas mesas separavam Ana Paula e Dona Sônia de outro turno encerrado com primazia, de mais uma tarefa cumprida. Eis que, por fim, penetra um cliente atrasado, conhecido da casa, ciente dos pratos que podem não estar no cardápio e pede nhoque. Ana Paula e Dona Sônia olharam-se, assentiram e disseram que sim. Aceitaram, pois não se desdenha quem prestigia a cozinha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Nhoque... vou ver o que tem de massa... – sorriu Ana Paula que num zás-trás voltou oferecendo conchinhas com recheio de ricota e espinafre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Surpreso com a carta na manga, o atrasado, percebendo sobretudo a ausência de Miguel – que já havia negado-lhe a venda de bebidas alcoólicas no almoço – aproveitou para perguntar se não seria possível beber uma taça de vinho. Com um naipe desses no âmbito das massas, só faltava vencer o jogo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Claaaaaro que pode – disse Dona Sônia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ana Paula perguntou se ele queria o do galão de cinco litros ou o &lt;em&gt;cabernet savignon&lt;/em&gt; argentino. Ficou com o último e mais uma água sem gás. O jovem que experimentou o fígado acebolado e mais outra mesa fecharam as contas e foram embora. Agora, restaram apenas duas. O novo garçom serviu a taça de vinho e a água sem gás, e Ana Paula atendeu os clientes ao lado que pediram sobremesas. Antes que questionassem, acrescentou que, além dos mousses de limão, maracujá e do manjar, ela tinha mousse de chocolate e arroz doce a oferecer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Arroz doce! – soou uníssono o pedido dos três satisfeitos fregueses.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois que todos foram embora e a equipe da cantina estava reunida apenas com São Judas Tadeu, o santo patrono das causas desesperadas e das causas perdidas na Igreja Católica Romana, cuja imagem repousa – com uma rosa postiça, a epístola e segurando a régua de carpinteiro – na parede à direita de quem está dentro do balcão, Ana Paula tomou nota para não se esquecer de comprar carne bovina. Ela se aprontou, pegou a bolsa, as chaves do carro e saiu. Na quinta-feira, os &lt;em&gt;pratos do dia&lt;/em&gt; seriam estrogonofe e costela com batata. Quer dizer, isso sem contar o coringa que nunca consta no cardápio.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4732245796051481977-5362658728799584010?l=a-cantina.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://a-cantina.blogspot.com/feeds/5362658728799584010/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://a-cantina.blogspot.com/2009/09/iii-ja-se-passavam-mais-de-tres-semanas.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4732245796051481977/posts/default/5362658728799584010'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4732245796051481977/posts/default/5362658728799584010'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://a-cantina.blogspot.com/2009/09/iii-ja-se-passavam-mais-de-tres-semanas.html' title=''/><author><name>Luciano Bitencourt</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01733890549897470635</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='28' height='32' src='http://bp2.blogger.com/_9d03NFtnhPA/R_UemyLYMFI/AAAAAAAAACA/OjXMN2PhcqU/S220/avatar.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4732245796051481977.post-8595637086603169837</id><published>2009-09-20T11:59:00.001-03:00</published><updated>2009-09-20T15:56:29.189-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Capítulo 3 - I'/><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;A Mesa&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;I&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Miguel sorriu ao ouvir alguém contar a velha piada de que a bola tem dois lados: dentro e fora. Coisa de garoto, ciência fundamental para ingressar nas escolinhas de futebol.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Como que é, gostou? – perguntou Miguel ao grupo sentado ao centro da cantina enquanto seus integrantes saboreavam as primeiras garfadas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim, independente de qual fosse a resposta – e parece que ele nunca se importa com a resposta –, continuava a inquirir os outros comensais sem deixar, é claro, de implementar detalhes sobre os pratos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Hoje a Sônia caprichou! – passou a mão nos lábios da esquerda para a direita e depois fez um sinal de OK.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Atento ao &lt;em&gt;timing&lt;/em&gt; das refeições, sugeriu sobremesas ou o tradicional cafezinho quando percebeu o almoço de alguém rumar para o encerramento. Estava inspirado em plena quinta-feira, sentia-se empolgado com a chegada do fim de semana. Insistiu em mencionar em voz alta o sabor incomparável do manjar servido no dia, ou a opção do irresistível quindim, colheu em seguida novos pedidos certeiros e imploráveis pelas sobremesas e se dispersou na abordagem de um novo cliente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vale ressaltar que não é só de notas de rodapé que vive ele. Responsável pela divisão e organização das mesas no recinto, Miguel é quem encaminha o freguês para o lugar correto a ocupar. Há luas ele conhece os dois lados da pelota. Isso implica, necessariamente, em não haver acordo se a preferência do cliente por uma mesa for contrária à sua orientação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Posso sentar-me aqui? – perguntou sem compromisso e puxando a cadeira o rapaz que trazia a namorada para almoçar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Miguel não abre mão de seu roteiro diário. Pode haver mesas vazias, e aquele dia havia mesas vazias, mas regras são regras.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Não, aqui por favor – acomodou o cliente onde bem desejou mesmo diante de uma cara feia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A chegada de outro jovem casal feliz, debatendo um assunto qualquer e, simultaneamente, a procura de um lugar para sentar-se à vontade, logo é interpelada pelo escrutínio do anfitrião que dispara sem nenhuma compaixão ao espírito de alegria então manifesto:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Aqui, aqui, esse é o lugar – apontou ao mesmo tempo em que esfregou as mãos e preparou-se para apresentar o menu e fazer a sua sugestão quanto ao prato também (apesar de o casal tê-lo ignorado e continuado a conversar).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Paul Blüher, Gringoire e Saulnier, Borgarello, Klopfenstein, Leospo e Carnacina, são alguns dos maiores autores de manuais de serviço à mesa no mundo. De um jeito ou de outro, o trabalho de Miguel – ou de qualquer outro garçom ou &lt;em&gt;maitre&lt;/em&gt; – sofre influência desses especialistas, homens que dedicaram mais do que a própria vida pela arte de preparar e servir alimentos, e de receber os clientes. É difícil saber em qual deles exatamente Miguel se inspira para organizar a sua &lt;em&gt;mise en place&lt;/em&gt;. Uma pesquisa exaustiva sobre o tema não elucida quaisquer referência sobre o lugar correto a encaminhar determinado cliente – a não ser que a pessoa, ou outra, tenha uma mesa de preferência ou reservada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Habilidoso, Miguel nunca consultou, entretanto, o calhamaço Arte e Ciência do Serviço publicado pela editora Anhembi Morumbi e que diz:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Quando o cliente estiver sentado à mesa, tem início o serviço propriamente dito: uma boa organização fará a diferença entre um serviço apenas aceitável e um feito com esmero e profissionalismo”. E ainda: “A primeira pessoa que se aproxima da mesa dá as boas-vindas ao cliente e verifica que esteja à vontade.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em seguida, lança dicas sobre as tarefas do &lt;em&gt;maitre&lt;/em&gt; em relação ao cliente que incluem: “perguntar-lhe se gostaria de tomar um aperitivo”; e “propor o cardápio, descrevendo brevemente a sua organização, os eventuais pratos do dia e orientando o cliente com suas sugestões”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Apesar de desconhecer a obra específica, Miguel segue os quesitos básicos que regem as atividades de &lt;em&gt;maitre&lt;/em&gt; e de garçom, certo que é seu trânsito entre as duas, mas o seu critério em decidir qual a mesa deve ser ocupada – num restaurante onde não há reserva de lugares – não se encontra em nenhum dos manuais. É muito pessoal.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4732245796051481977-8595637086603169837?l=a-cantina.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://a-cantina.blogspot.com/feeds/8595637086603169837/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://a-cantina.blogspot.com/2009/09/mesa-i-miguel-sorriu-ao-ouvir-alguem.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4732245796051481977/posts/default/8595637086603169837'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4732245796051481977/posts/default/8595637086603169837'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://a-cantina.blogspot.com/2009/09/mesa-i-miguel-sorriu-ao-ouvir-alguem.html' title=''/><author><name>Luciano Bitencourt</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01733890549897470635</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='28' height='32' src='http://bp2.blogger.com/_9d03NFtnhPA/R_UemyLYMFI/AAAAAAAAACA/OjXMN2PhcqU/S220/avatar.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4732245796051481977.post-260890124495406188</id><published>2009-09-20T11:56:00.001-03:00</published><updated>2009-09-20T16:03:29.378-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Capítulo 3 - II'/><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;II&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Faz diferença, para o cliente, o lugar a ser acomodado. O prato a ser escolhido é outra história. As mesas ali distribuídas apesar de similares e de ocuparem um espaço diminuto não são semelhantes entre si no que diz respeito ao gosto das pessoas. As que se localizam próximas à calçada – nunca em cima dela, deve-se lembrar – são menos interessantes em razão do sol nas estações quentes e do vento nas estações frias, estão perto do trânsito de pedestres e do barulho e fumaça da rua. Miguel faz questão de arrumá-las em pares – para quatro pessoas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na linha central da cantina, em ambos lados, estão as mesas que ainda podem ser vistas pelos transeuntes e que também são ajeitadas em pares ou já individuais – para duas pessoas. No fundo, próximo ao bar, do lado esquerdo, embaixo dos painéis de fotografias, ou do lado direito, de costas para a geladeira com a bandeira de Portugal dependurada, estão as mesas mais discretas, individuais, de onde se enxerga parte da rua e delas têm-se uma visão pouco nítida a quem está do lado de fora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desta forma, sabe-se que certas pessoas vão preferir esta ou aquela mesa e que isso é algo corriqueiro no dia-a-dia da cantina ou de qualquer outro estabelecimento do gênero.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As mulheres, principalmente, se incomodam bastante com a situação, pois às vezes Miguel, como já citado, as encaminha para uma mesa onde o sol queima em exagero ou então próximo à calçada cercadas pelos olhos dos pedestres e pelo ambiente nauseabundo empapuçado com a fumaça dos automóveis. Elas são sensíveis, e haja linha de cosméticos, à cidade que possui 91 mil ruas e avenidas, onde transitam quase 6 milhões de carros, sendo que deste total 32 mil são táxis e 10 mil ônibus urbanos. Não querem sentir essa situação na pele, ao menos não na hora do almoço.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se alguém rompe a placa de sinalização sentando-se livre onde desejar é servido com uma pitada de indiferença, poucas palavras e nenhum primor. Miguel fica inconformado. Olha com rabo-de-olho, resmunga. Reverter o problema só mesmo se o cliente envolvido no desdém em questão for alguém muito espirituoso que, mesmo diante de tamanho descaso, ainda assim sorri e agradece o amigo em serviço.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Miguel faz tipo de durão, mas tem o coração mole.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É o paizão que gosta de colocar ordem na casa. É o personagem da lembrança que um de seus amigos clientes contara outro dia sobre o próprio avô. Enquanto devorava uma apetitosa lasanha, aquele homem com trejeitos de comerciante, cabelos brancos, lisos, mas crespos, falava de casos pessoais e descreveu com precisão uma passagem de sua infância:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Quando a gente ia almoçar lá na fazenda cada um tinha o seu lugar, primeiro sentava meu avô na tradicional ponta da mesa e então meus pais e tios, as mulheres, só depois a garotada. Na sala não era diferente, ninguém sentava na poltrona de leitura e de ouvir o rádio que era do meu avô.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Miguel ainda segue à risca essa hierarquia, assim como seus colegas ele também deve ter sido criado num ambiente onde os privilégios eram sinais de respeito e tradição.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por outro lado, não foi assim que aquele casal sorridente deveras foi criado. É bem provável que o conceito deles sobre respeito e tradição seja o avesso do de Miguel. São outros tempos, eles não entendem quais foram as intenções do torcedor fanático do Palmeiras ao insistir que eles ficassem na mesa próxima à rua.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– A mesa é para quatro lugares, vocês vão ficar com espaço – argumentou, tendo em vista bolsas e mochilas sobre as cadeiras.&lt;br /&gt;– Não queremos, está batendo sol em mim – reclamou a garota, ao ser consolada pelo namorado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Talvez a atitude sistemática de Miguel passasse despercebida se o clima entre o casal não sofresse reveses como aconteceu. Ele e ela entraram sorridentes e discutindo sobre um trabalho em vídeo que pensavam em fazer. Eram estudantes de Jornalismo e, pelo visto, a empreitada correspondia ao projeto de TCC (Trabalho de Conclusão de Curso). Usuários do Metrô e da CPTU, moravam próximos à cantina e tinham em mente um roteiro a qual discutiam. Ela professou a respeito do tema, contou sobre o velho que aborda as pessoas para oferecer os serviços de taxi em frente à escada da estação. Em outras palavras, disse:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Todos os dias frente à escada do Metrô, na estação Vila Madalena, que dá acesso à rua Heitor Penteado (na saída pela José Augusto Penteado) no lado oposto ao do terminal de ônibus, um homem na casa dos seus 60 anos interpela quem alcança a luz do dia ou o breu da noite. Ele é gordo, grisalho, calvo, sua roupa desgastada é timidamente escondida por um projeto de colete com faixas em tinta fosforescente. Em estado de emergência estão o seu par de tênis &lt;em&gt;made in vietnam&lt;/em&gt; e os dentes irreais que ficam visíveis a cada vez que sorri após a pergunta: quer táxi? De manhã quem está a descer as escadas, ouve a contingência indagativa desse mesmo senhor: quer táxi? Assim que retornam para o sagrado descanso do lar deparam-se incontinente com ele: quer táxi? Se faz sol, chuva, frio, calor, se é sábado, domingo ou feriado, jogo da seleção brasileira, eleição ou 25 de dezembro: quer táxi? Não importa que o indagado seja um morador das redondezas e faça diariamente o mesmo caminho, o mesmo trajeto, passou pelo senhor do colete aos pedaços vem a encomenda: quer táxi?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele ouvia atentamente a história que ela contava. Então, a jovem prosseguiu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Não é difícil aquele senhor berrante do Metrô Vila Madalena, depois de sair de casa com o céu negro e estrelado, olhar para o dia claro, azul e ensolarado e torcer – enquanto pende a cabeça para os lados no trajeto pelos trilhos ou avenidas – para que uma nuvem negra paire sobre a Zona Oeste de São Paulo e dela caia uma chuva fina, mas contínua, daquelas que fazem todos os que saem pela escada do Metrô ter pena daquele pobre coitado e pedir um carro antes mesmo que ele abra a boca para dizer: quer táxi? Nos dias de sol e de clima ameno as pessoas tendem a ser mais enérgicas, andando à pé ou pegando o ônibus para chegar ao seu destino assim que saem da estação. Se ver aquele homem em dias normais é algo que comove quem passa por ali, o que dizer então dos dias chuvosos em que ele veste uma capa de plástico feita com sacolas costuradas com fios de cobre e que se protege dos pingos com um guarda-chuvas caquético, assimétrico, furado, tortuoso e enferrujado? É o dia que o trabalho dele é sucesso, rende cortesias, menos aborrecimentos e uma quirela a mais de gorjetas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele olhava para alto como se estivesse a ter ideias, viu com isso o enorme e antigo candelabro de teto da cantina, que carecia de três lâmpadas no total de seis. O roteiro dela até o momento se passava a dois quarteirões dali. Tinha bom fundamento. Ela não parava de falar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Os moradores do prédio em frente devem não suportar mais tal atividade embaixo de suas janelas. Principalmente aqueles, ou aquelas, cujo período de labor transcorre durante à noite e que dependem das manhãs e tardes para dormirem. Esses respeitáveis trabalhadores certamente alegarão que somada à buzinas, apitos, freios, gritos, aceleradas, berros, furadeiras, serras elétricas, imóveis em reforma ou construção, jatos d'água em postos de gasolina, escapamentos e à empregada do apartamento vizinho, a exclamativa incessante do solícito “quer táxi?” torna-se um incômodo sem precedentes, além de um ótimo dispositivo para a insônia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Miguel não apareceu para oferecer-lhes outra mesa. O jovem pensou que talvez o garçom tivesse concluído que ambos estavam satisfeitos com o lugar. No entanto, ele sabia que assim que a garota acabasse com a explanação sobre o &lt;em&gt;script&lt;/em&gt;, logo reclamaria no mínimo o cardápio que ainda não tinha sido entregue. Ela emendou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Vamos falar com quem garanta já ter se acostumado com a atividade e com quem já tentou explicar várias vezes ser morador do edifício em frente ao senhor “quer táxi?”, mas que as tentativas foram em vão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele disse ter gostado da ideia, mas ponderou que a conivência do velho era fundamental para a realização do projeto sendo que, dessa forma, a primeira providência a ser tomada seria conversar com o próprio. Foi quando ela mostrou-se irritada e quis saber do cardápio. Ele levantou a mão e acenou. Ela começou a dissertar sobre os problemas, explicou que o velho não trabalha mais no local. Meses atrás, viu ele andando de um lado para o outro na porta da farmácia, na outra esquina.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Parecia descontrolado, conversava sozinho e gesticulava os braços. Bateu boca com um homem mais novo, carrancudo, de bigode e com ares não muito insinuantes à prosa. Procurou dispensar o soco que provavelmente estava ávido a aplicar na cara daquele adversário que imóvel com o peito estufado insista apenas em olhar atenciosamente para o horizonte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ignorado e com os nervos à flor da pele, o velho senhor “quer táxi?” – disse ela – mexia-se todo ao telefone público, fazia objeções com relação alguma medida, dizia-se traído e injustiçado e afirmou que, uma vez mantida a situação de desconforto, nunca mais voltaria a trabalhar naquele lugar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Eu esperei tempo demais para falar com ele – reclamou a si mesma.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O namorado dela entendeu que tudo não se passava de amadorismo, ideia de estudante, que pensa um trabalho genial mas não se dá conta de que maneira irá executá-lo. Assim que Miguel foi chegando, ele pediu o cardápio e falou novamente sobre sentar-se noutra mesa. Ela, eufórica, finalizou a proposta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Ele foi embora mesmo. O tal homem do bigode ficou pouco tempo, foi substituído por um sujeito moreno que também já deu lugar outro, que já saiu. Agora não é possível identificar alguém em específico que ocupe aquela vaga de trabalho, ao que tudo indica existe uma alta rotatividade de profissionais que a procuram. Além disso, o que está agora, tem um colete padronizado, coisa fina, escrito “Auxiliar Operacional de Táxi”, deve ter entrado um sindicato na jogada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Antes que ele afirmasse ser difícil desenvolver o trabalho, apesar de a história ser interessante, ela concluiu o desfecho dizendo que o velho trabalhou oito anos naquele posto e naquelas condições e que, depois do ocorrido, voltou para a sua cidade natal localizada no norte de Minas Gerais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– A história é ótima, o problema todo é o lugar onde ele está – disse sem muito entusiasmo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os dois ficaram calados. Bastou uma pitada de frieza e do racionalismo dele para que ela entendesse que a proposta era falha. Pelo jeito, ela havia trabalhado pesado nessa ideia. A inviabilidade do projeto deixou os dois nervosos e no final da conversa os ânimos não eram os melhores, tanto de um lado quanto do outro. Ela queria portfólio para pleitear um lugar na O2 Filmes, ele queria apenas concluir o TCC e sair logo da faculdade. Não bastasse, havia a insistente recusa pela mudança de mesa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Como é, a gente pode se sentar ali dentro ou não? – disparou a jovem sem cara de muitas amizades.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Miguel desconversou, entregou o menu, elogiou o &lt;em&gt;prato do dia&lt;/em&gt; – carne de panela enrolada na batata cozida – e voltou-se para mesa ao lado. O casal mexeu-se nas cadeiras. Ela enfurecida lia o cardápio, ele procurava acalmá-la. Não conseguiu, foram embora. Entraram três pessoas juntas em seguida, estavam menos empolgadas e sem sorrisos escaldantes. Sentaram-se onde bem quiseram no meio da cantina, nem olharam para o garçom, havia um cardápio na mesa e começaram a escolher. Fizeram o pedido. Miguel não fez objeção alguma, ou seja, não sabe o porquê, ali pode. &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4732245796051481977-260890124495406188?l=a-cantina.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://a-cantina.blogspot.com/feeds/260890124495406188/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://a-cantina.blogspot.com/2009/09/ii-faz-diferenca-para-o-cliente-o-lugar.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4732245796051481977/posts/default/260890124495406188'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4732245796051481977/posts/default/260890124495406188'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://a-cantina.blogspot.com/2009/09/ii-faz-diferenca-para-o-cliente-o-lugar.html' title=''/><author><name>Luciano Bitencourt</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01733890549897470635</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='28' height='32' src='http://bp2.blogger.com/_9d03NFtnhPA/R_UemyLYMFI/AAAAAAAAACA/OjXMN2PhcqU/S220/avatar.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4732245796051481977.post-4653144045110648040</id><published>2009-09-20T11:48:00.000-03:00</published><updated>2009-09-20T11:56:03.849-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Capítulo 4 - I'/><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;strong&gt;O Dono&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;I&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os olhos espantados, curiosos e matreiros do agitado Rafael fitavam mesa a mesa, vez por outra, todas as pessoas. Espoleta, cortava da cozinha à calçada nos moldes de um velocista, ganhava impulso correndo semelhante aos patinadores de circuitos fechados que pendem o corpo ora para a direita, ora para a esquerda. Passava por milímetros de esbarrar no novo garçom, nas mesas ou nos clientes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na agilidade de um suricato, quisesse vê-lo era preciso estar atento aos centésimos de segundo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Corínthians não! Palmeiras! Eu sou Palmeiras, nem me fale em Corínthians! – puxou, num grito, a orelha da mãe, prima de Ana Paula, que a muito custo conseguiu colocá-lo à mesa, bem embaixo da foto de Dorival Seriacopi, para comer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A mulher descuidou-se e mencionou, sem querer, a equipe do Parque São Jorge e de forma automática o traquinas com pouco mais de cinco anos enervou-se. Neto de Marcolino Teixeira, irmão do meio de Dona Sônia, o garotinho nem imaginava que o seu &lt;em&gt;playground&lt;/em&gt; momentâneo pertence a terceira geração de uma família cuja a origem tem como base as redondezas da Pompéia e de Perdizes, e que desde tempos remotos leva consigo no peito o emblema da esquadra verdejante do Parque Antártica.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Seu tio-avô Dorival – mesmo que o garoto não o distinguisse em nenhuma daquelas imagens – viveu e morreu literalmente pelo time. Por isso nada de errado havia com a irritação do pequeno, ao exaltar-se apenas manifestou uma característica hereditária, apesar de o pai corintiano, e que se expressava nele da mesma maneira que transmiti-la já é parte integrante do seu destino.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Rafael não conheceu o “tio Dori” mas um dia vai ter a oportunidade de ler a história daquele homenzarrão branquelo, de charmosos olhos azuis e metido a besta que nos louros dos 16 anos, em 1957, não teve medo de estufar o peito e ir pedir em namoro a então jovem de apenas 13 anos ao dono do açougue na esquina das ruas Luminárias e Heitor Penteado. Vai saber também que enquanto o seu bisavô materno, o açougueiro, era um genuíno &lt;em&gt;calabrese&lt;/em&gt; em sangue, modos, pratos e coração, a bisavó era de origem portuguesa assim como o próprio “tio” Seriacopi.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se a curiosidade aguçar, podem acrescentar ao palmeirense dente-de-leite que o “tio Dori” quando jovem era muito amigo do irmão de Dona Sônia, o vô Marcolino, e vivia primeiramente de olho na irmã mais velha dela, que logo esteve comprometida com outrem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Na casa dos meus pais tinha uma escada. O Dorival me disse que o dia que me viu descer aqueles degraus teve certeza de que eu era o amor da vida dele – lembra com carinho e emoção, e com os olhos lacrimejantes, a tia-avó do traquinas sempre que o nome do eterno companheiro é mencionado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Seu Dori nasceu, cresceu e viveu no imóvel onde está localizada a cantina e onde funcionou por muitos anos a marcenaria do pai. A casa da família ficava nos fundos – existe ainda hoje. Contador, taxista, funcionário do Grupo Sérgio, antigo perueiro e torcedor fanático do Palmeiras, Dorival Seriacopi tinha como companheiro inseparável, além do colega Marcolino, um bonitão de origem luso-italiana chamado Miguel Pascoal. A dupla de periquitos foi o terror dos anos de 1950 na Zona Oeste de São Paulo. Da avenida Paulista, passando pelas ruas Dr. Arnaldo, Apinajés, Aimberê e Caiowaá até à avenida Pompéia e, depois, parte da Lapa, conheceram os mistérios da vida, constituíram família, criaram os filhos e deixaram sua marca registrada cada qual com sua história, com sua coleção de aliados e inimigos, com seu rol de admiradores e desavenças, e acima de tudo com o seu caminhão de boas recordações.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esse mesmo companheiro inseparável assumiria, por volta do ano 2000, o atendimento na cantina e, apesar de alguns intervalos, não deixaria Dona Sônia e Ana Paula em momento algum sem assistência.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– “Seu Miguel” e meu pai eram muito amigos, desde a juventude – comentou Ana Paula ao confirmar estar sempre buscando orientação do amigo quanto à aquisição de determinados produtos ou à indicação de algum profissional para a cantina.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Apesar de toda pompa de brigão e de devoto pelo alviverde provavelmente Seu Dori nunca confessou aos colegas quem de fato o levou para dentro do Parque Antártica. Talvez, nem Miguel conheça esse segredo. Se conhece, não toca no assunto. Antes de iniciar o namoro, Dona Sônia era não apenas torcedora do Palmeiras como também sócia há anos. A primeira batida com o pau-de-macarrão para Dorival Seriacopi não se deu por ciúme, carência, libertinagem ou sem razão. Foi determinante: adquirir o título de sócio do clube.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Ou virava sócio ou terminava o namoro – revela às gargalhadas e durante os raríssimos momentos em que o trabalho lhe reserva instantes de intimidade, a outrora pequena garota de 13 anos. Agora, aos 55 anos, ainda pequena e com os cabelos curtos, faz contínua peregrinação até a calçada para pitar alguns cigarros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma vez que a equipe do Parque Antártica sempre foi o sonho e a paixão do Sr. Dori não se sabe até aonde a imposição de Dona Sônia soou autoritária ou desconfortável. Ele a atendeu de prontidão. A realidade é que durante a vida inteira o grandalhão filho do português da marcenaria não soube em momento algum diferenciar onde começava e terminava a vida de torcedor e a de profissional e pai de família. Tudo se misturava. E a casa da família Seriacopi nunca deixou de ser uma verdadeira extensão do Palestra Itália, uma das principais cozinhas do clube. Talvez, por isso a principal característica dos pratos da cantina hoje em dia seja o precioso tempero preparado com o uso básico de alho, sal e óleo, um equilíbrio essencial e indispensável no paladar do palmeirense – que Dona Sônia adotou depois do casamento moendo todos os ingredientes – cujo nome está marcado na entrada do Palestra Itália através de uma placa em homenagem aos seus ex-diretores e ex-conselheiros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Não tinha um só dia em que ele não almejasse algum espaço no grupo dirigente do clube – reforça Paulo Seriacopi, o único irmão de Ana Paula, atrás do balcão do bar, depois das 18h, e na companhia de seu fiel escudeiro no comando dos espetinhos, o Careca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Paulo testemunhou o quanto o pai sonhou com essa glória. Que fosse apenas uma gestão, quatro anos, não importava, o objetivo era estar lá dentro. Tal desejo, afirma o primogênito que faz questão de manter viva a memória do pai nos adornos decorativos da cantina, não tinha nada que fosse relacionado à status ou interesses escusos financeiros. Tudo girava em torno de um sentimento de dever para com a equipe, a vontade de querer fazer algo mais, de corrigir erros, apontar caminhos e trazer soluções para problemas aparentemente simples mas que corroíam um dos principais times do futebol paulista.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Sônia, eu vou conseguir, um dia serei da diretoria do Palmeiras – repetia com convicção à esposa, que o apoiava com unhas e dentes, ou melhor com os dentes nas unhas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O envolvimento de Seu Dori com o Palmeiras ultrapassou barreiras até mesmo do bom senso. Dona Sônia perdeu as contas de quantas vezes, após os jogos, acompanhava o marido até o hospital onde ele chegava ofegante, roxo e sem ar. Os 16 anos de jejum em que a equipe ficou sem ganhar nenhum tipo de campeonato, entre 1976 e 1993, foram momentos muito difíceis. Foi um período que coincidiu com a abertura do mercadinho e, consequentemente, com a reunião de um bando de torcedores alucinados pelo Palmeiras e que, assim como manda a tradição, gostavam e muito de um bom quebra-pau.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cena usual era Dona Sônia correr, com as mãos sobre a cabeça, para o antigo banheiro que havia no lugar para se esconder da pancadaria. Assim que o tumulto acalentava, ela tratava de recolher os gladiadores e encaminhá-los às respectivas dependências. Segundo ela, o seu desespero sempre recebia o afetuoso consolo do marido:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Está tudo bem, Sônia, eu vou morrer pelo Palmeiras!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em diversas ocasiões tal manifestação era realizada em meio à catéteres, agulhas e tubos. Eram instantes de menor eloquência, no entanto de similar e tamanho ímpeto. Seu Dori viveu muitos sofrimentos. Situações de matar qualquer torcedor. A derrota do Palmeiras para o XV de Jaú na última rodada da fase de classificação do Paulistão, dentro do Palestra Itália, por 3 x 2, foi uma delas. Era dia 24 de novembro de 1985. Além de ser obrigado a vencer, o Palmeiras urubuzava o Corínthians contra a inexpressiva equipe do Comercial, de Ribeirão Preto. O arqui-rival jogou de manhã e perdeu. Como o XV de Jaú já estava eliminado coube a Ferroviária de Araraquara avançar pelas semifinais, ser vencida pela Portuguesa na sequência para que esta deixasse o São Paulo campeão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi um golpe certeiro em Seu Dori. Aquele ano ele considerava que o time tinha condição de largar o resguardo e vencer o estadual. Teve quebra-pau. O coração não resistiu, a falta de ar sufocava-o e a roxidão dava sinais do caminho a ser tomado. O hospital.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu vou morrer pelo Palmeiras, Sônia, eu morro pelo Palmeiras! – grunhia com emoção e garra apesar da voz mansa e sonolenta resultado do medicamento que havia acabado de receber.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O futebol foi mais que um simples esporte para aquele que iria abrir o primeiro restaurante &lt;em&gt;self-service&lt;/em&gt; no entorno de onde é atualmente a estação Vila Madalena do Metrô – inclusive, a cantina foi um dos principais pontos de refeição para os operários que trabalharam na construção do ponto final da Linha 2 - Verde em meados da década de 1990. Dorival Seriacopi almoçava, jantava e transpirava futebol. O desejo congênito de ingressar na diretoria do Palmeiras fez com que ele, desde cedo, datasse o início do seu projeto de dirigente. Em 23 de março de 1961, inaugurou o Brasilzinho da Pompéia, um time de várzea que congregava os craques da região homônima.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fonte inesgotável de novos boleiros, o Brasilzinho fez sucesso. Rendeu principalmente muito calo nas mãos de Dona Sônia, afinal de contas ela é quem muitas vezes recebeu aquele malote de tatu do marido ao final de cada partida do time. Em verdade, centenas delas. O Brasilzinho era uma genuína nação do futebol paulistano, um grupo de pessoas que não percebia que os anos se passavam, que a idade avançava e que, a cada 12 meses, os novos talentos do time eram jogadores sempre mais novos. A velha-guarda nunca arredava o pé de dentro do campo, seja em campeonatos, seletivas ou nas peladas. Adictos pela redonda, ficavam cegos pelo esporte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas uma hora a ficha caiu. O tempo voou e no aniversário próximo aos dez anos de existência da equipe, os seus colaboradores se conscientizaram que o negócio era deixar cada macaco no seu galho. Não, eles não abandonaram o campo, ao invés criaram o novo braço do time: os “Veteranos da Pompéia”. Agora, surgia a equipe paralela do Brasilzinho, assim como mais uma enorme dor de cabeça para Dona Sônia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Essa experiência foi a prévia da escolinha do Palmeiras que seu Dorival seria responsável, a partir de 2000, quando finalmente se tornou conselheiro benemérito do clube e ocupou o posto de diretor do departamento de avaliação e teste. A frente do Brasilzinho e do Palmeiras não faltariam ringues para uma boa encrenca. Dorival dava um boi para não entrar, mas uma vez dentro do tumulto entregava uma boiada para não sair. Se envolvia fisicamente sem qualquer medida, e com uma frequência inigualável, na defesa do escudo alviverde.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Sônia, eu morro pelo Palmeiras!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Muito antes, nos idos do cruzeiro como moeda, da fita Basf com o hino do Verdão e do Fiat 147 à álcool como a última novidade, ele já era duro na queda. Brigava. Até que um dia cansou-se de discutir no terreiro dos outros e fez da oficina do pai, assim que o mesmo faleceu, o ponto de encontro daquela turma de amigos broncos, enfezados, beberrões e, acima de tudo, ímpares em fraternidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em 1980, no quarto ano em que o Palmeiras não vencia um campeonato se quer, Dorival Seriacopi abriu as portas do mercadinho num simplório e aconchegante cubículo medindo algo próximo a 20 metros quadrados, encrustado no pé de uma rua íngreme e histórica da capital paulista. Precisamente no final de uma das vias, não principais, de maior extensão da Zona Oeste.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dona Sônia, seu braço direito (e esquerdo), estava lá. Por isso não deu outra: junto com o mercado, um açougue.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4732245796051481977-4653144045110648040?l=a-cantina.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://a-cantina.blogspot.com/feeds/4653144045110648040/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://a-cantina.blogspot.com/2009/09/o-dono-i-os-olhos-espantados-curiosos-e.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4732245796051481977/posts/default/4653144045110648040'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4732245796051481977/posts/default/4653144045110648040'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://a-cantina.blogspot.com/2009/09/o-dono-i-os-olhos-espantados-curiosos-e.html' title=''/><author><name>Luciano Bitencourt</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01733890549897470635</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='28' height='32' src='http://bp2.blogger.com/_9d03NFtnhPA/R_UemyLYMFI/AAAAAAAAACA/OjXMN2PhcqU/S220/avatar.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4732245796051481977.post-5735191108290745963</id><published>2009-09-20T11:38:00.000-03:00</published><updated>2009-09-20T11:47:08.672-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Capítulo 4 - II'/><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;II&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Antes de dormir na noite de 15 de março de 1990, Dorival Seriacopi pensou bastante a respeito da discussão que havia ocorrido naquele dia dentro do bar/mercearia/restaurante. Depois de uma década com seu &lt;em&gt;green point&lt;/em&gt;, por incrível que pareça, um assunto o atormentava mais do que os descaminhos do seu time do coração: a política nacional. Ele, com sua visão conservadora, preferia discutir futebol, mas um grilo não parava de azucrinar o seu ouvido. No final de 1989, logo após a vitória de Fernando Collor de Melo nas eleições presidenciais, a expectativa era de um novo país que estava finalmente a emergir, um Brasil grande, forte e competitivo, aberto para a nova economia que estava a todo vapor nos países desenvolvidos e subdesenvolvidos. Abertura econômica era a palavra do dia. E até filósofos como o francês Michel Serres viriam a declarar que o Brasil era um dos poucos países onde o processo de globalização não causaria grande impacto na transformação cultural por se tratar de uma nação que já possuía o conceito de integração de identidades por natureza.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Seu Dorival não tinha habilidade com filosofia. Era viciado em programas esportivos do rádio e da TV. Com os olhos ainda abertos, fazia suas próprias considerações. Dormiu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No outro dia acompanhou estarrecido pela Telefunken e junto aos seus amigos e clientes na cantina o anúncio em rede nacional, proferido pela ministra da Economia da época, Zélia Cardoso de Melo, de que o cruzado novo evaporou-se e deu vida novamente ao cruzeiro, que os preços estavam congelados e que todas contas bancárias com depósitos acima de 50 mil cruzeiros estavam com o excedente desse valor confiscados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Palmeiras continuava de mal a pior, catorze anos na seca. No entanto, ao contrário dos outros 139 milhões de brasileiros, naquela tarde, Seu Dori não sentiu-se desanimado. Começou a ter idéias. Ficou calado por alguns minutos justamente no tempo em que na porta da cantina, primeiro um homem, depois uma mulher, perguntou-se:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Aqui vende almoço?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vender, vendia, mas sua cota diária já havia se esgotado antes mesmo da 13h30. Dorival percebeu o quanto era importante direcionar o foco das suas atenções para a cantina, parecia antever que a sua preocupação-mor – o Palmeiras – seria contemplado dois anos depois com a assinatura do contrato junto à empresa italiana de laticínios Parmalat. Desta forma, pode-se afirmar que a fase Collor foi preponderante para a abertura e expansão da cozinha da casa para o público que a frequentava. Em meio à turbulência, Dorival viu oportunidades.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Os fregueses, em 1989 e 1990, começaram a perguntar se tinha almoço. Era o dia inteiro, gente passando e perguntando – recorda Dona Sônia, ao mesmo tempo que demonstra estar sedenta por uma xícara de café.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era um período de transição que seria superado com o impeachment do então presidente da República e coroado com a nova parceria do amado Verdão. Em 1992, os italianos implantaram um modelo diferenciado de gestão no clube e investiram pesado, entre outras coisas, na contratação dos maiores craques do futebol brasileiro da época. O placar final após oito anos ao lado dos &lt;em&gt;ragazzos&lt;/em&gt;: onze títulos entre estaduais, nacionais e internacionais. Em detalhe, dois Campeonatos Brasileiros (1993 e 1994), uma Copa do Brasil (1998), uma Copa Mercosul (1998), uma Copa Libertadores da América (1999), dois Torneios Rio-São Paulo (1993 e 2000), três Campeonatos Paulistas (1993, 1994 e 1996) e uma Copa dos Campeões (2000).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enquanto o Palmeiras somava uma conquista atrás da outra, o antigo mercadinho do Seu Dori também ascendia incorporando até um serviço de lanchonete. O restaurante em si começou em 1989 quando Dona Sônia vendia nove pratos por dia e trabalhava num fogão doméstico de quatro bocas. Ao final da década seguinte esticaria turnos de até 19 horas ao lado de Seu Dorival, todos os dias, sem folga. Tudo isso, para suprir a sinergia mercadinho, bar, lanchonete e restaurante. Vendia-se centenas de pratos por dia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tudo numa intensidade de paixões (o Palmeiras, a cantina, a própria família...) que deixava orgulhoso tanto Seu Dorival ao investir num presente de aniversário para Dona Sônia, quanto ela própria em receber emocionada a larga encomenda pela transportadora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Aí a gente engrenou o restaurante – diz mais uma vez às gargalhadas ao entregar que o tão importante presente de aniversário era um fogão industrial de três bocas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi durante esse período que ela viu os enormes quebra-paus, colocou as mãos sobre a cabeça e se escondeu no banheiro. Foi quando o Brasil perdeu um herói e quando Seu Dorival comprou uma edição especial da antiga revista Contigo contendo um poster do seu ídolo e mandou emoldurá-lo. Ainda hoje o quadro está lá na cantina com a seguinte descrição: “Não fosse Deus, não teria conseguido tudo que consegui. Ayrton Senna, 1960-1994.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De mercado, açougue, bar, lanchonete e restaurante, o local recebeu diversas reformas, até um segundo andar – hoje depósito – seria erguido para comportar os tempos de &lt;em&gt;self-service&lt;/em&gt;. Na virada do milênio, os astros convergiram a favor de Seu Dori. Ele foi pego de surpresa quando outro grande companheiro, o Roque, conselheiro e amigo do então presidente Mustafá Contursi, deu a tão esperada notícia pela qual aguardou ansiosamente desde a tenra idade: integrar a chapa favorita na eleição da nova diretoria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em 2000, Dorival Seriacopi se tornou um dos poucos seres humanos que pode se gabar de ter visto e desfrutado o sonho realizado. Tornou-se conselheiro do clube e diretor do departamento de avaliação e teste do Palmeiras. Viu materializar-se aquele filme transcendental que é transmitido sempre que uma pessoa fecha os olhos. Na prática, agiu exatamente como também sonhava: um dirigente íntegro e probo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma vez no comando, defendeu garotos negros e desfavorecidos diante de jogadores de famílias tradicionais, com empresários e ruins de bola. Responsável pelas peneiras no estádio do Pelezão, no bairro da Lapa, transformou a cantina também num lugar de preenchimento de fichas para participação nas seletivas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Isso aqui vivia cheio garotos – lembra Ana Paula que contou ter deixado, em 2000, o emprego numa concessionária de automóveis nas imediações para se dedicar exclusivamente à cantina depois que o Palmeiras tomou quase todo o tempo do pai e de Dona Sônia ter se submetido à uma cirurgia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Apesar do susto com a filha do &lt;em&gt;calabrese&lt;/em&gt;, foram tempos iluminados. Miguel estava lá também, sentiu a importância de auxiliar os amigos. Teve uma tarefa ímpar a qual não pode recusar. Nessa mesma data o antigo garçom do bar, o emblemático morador da rua Girassol, na Vila Madalena, o seu Manga, deixava o posto – mas continuaria a acompanhar religiosamente Ana Paula e Dona Sônia ao cemitério, nos últimos anos, no Dia dos Pais. Convocado, Miguel assumiu o dever. Tempos depois ele iria contar aos clientes casos curiosos estampados em cada fotografia afixada, entre outras, nos cinco painéis enfileirados à esquerda de quem adentra a cantina; iria lembrar-se da ocasião em que alguns músicos da banda de rock Titãs, também torcedores do Palmeiras, entraram na cantina e conversaram com seu Dorival. Antes de deixarem dedicatória no quadro com o desenho do periquito palmeirense – “Dorival, um abraço dos amigos do Titãs, Paulo Miklos e Branco Mello, 15/08/2001” – gravariam lá trechos do clipe da canção “A melhor banda de todos os tempos da última semana”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Seu Dorival é só Palmeiras. E apesar de todas as glórias, não foi possível o destino lhe desviar de uma série de infortúnios, a exemplo da queda para a segunda divisão do Campeonato Brasileiro, em 2002. Até 2004, o clube enfrentaria problemas de ordem política e administrativa, denúncias de corrupção e outros dissabores. A segunda quinzena de outubro daquele ano foi um autêntico pega-para-capar. O portal de esportes Gazeta Esportiva.Net trouxe uma notícia intitulada “Proposta indecente”, onde revelava os bastidores da demissão do técnico José Cândido Farias, o Candinho, na época.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No meio da polêmica, o português não economizou palavras e soltou o verbo. Se é para pecar, Dorival pecou, mas pela franqueza. Não possuía papas na língua, era sincero, pois na batalha diária que enfrentava ser transparente era primordial para manter aglutinado o seu exército. Firme e no prumo, mostrou o que é ser um torcedor inato, por isso no final de 2004 gozava de um prestígio que não condizia com certas arruaças existentes dentro da diretoria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A mesma GE.Net voltaria ao assunto logo em seguida no especial sobre as peneiras em grandes clubes. No dia 31 de outubro, em matéria assinada por Maurício Svartman, Seriacopi é ouvido e descrito como a pessoa honesta e realmente perseverante que sempre foi na defesa pelo alviverde:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Quinta-feira, 8 horas da manhã. No Pelezão, um centro esportivo próximo ao Cemitério da Lapa, cerca de duzentos garotos se aglomeram em torno de um campo de futebol. Enquanto 22 deles lutam pela bola que quica mais do que deveria no campinho de terra batida, alguns agarram-se ao alambrado e outros assistem à pelada de longe, acompanhados de seus pais. O objetivo daqueles meninos que pouco falam e não demonstram sono, apesar de terem acordado até quatro horas antes, é um só: tornar-se um jogador do Palmeiras.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Realizadas com cerca de três mil garotos por ano, dos quais 20 a 30 são aprovados, as peneiras do Verdão têm algumas vantagens que as livram das críticas tão freqüentemente desferidas por jogadores que não atingiram o profissionalismo. A maior e talvez mais importante destas vantagens envolve o lado financeiro: não é preciso pagar nada para participar. As inscrições são feitas no Parque Antártica a cada dois ou três meses, e de 200 a 300 boleiros são selecionados por vez.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Apesar da gratuidade, a ficha de inscrição já foi vendida por até R$ 50, garante Dorival Seriacopi, diretor do departamento de avaliação e teste e conselheiro benemérito do clube. Antes mesmo das recentes denúncias de suborno nas categorias de base (veja matéria à parte), seu Dorival, como é chamado, fazia questão de afastar qualquer suspeita. "A gente põe pra correr quem tenta oferecer dinheiro", afirmou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Outra vantagem que o Palmeiras oferece é a garantia de que o garoto terá tempo de mostrar seu futebol. São asseguradas quatro avaliações (treinos coletivos de 20 minutos) por jogador. "Mesmo para quem não sabe nem bater na bola", completa seu Dorival. Uma característica, no entanto, é exigida pelos observadores: a noção tática do jogo. "Se posicionando direitinho, já é um grande passo", garante Anderson Oliveira, treinador de avaliação, que dá instruções táticas básicas aos recém-chegados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As peneiras da categoria infantil ocorrem nas terças e quintas-feiras, a partir das oito horas da manhã. Já o juvenil treina às quartas e sextas, a partir das 13 horas. Após duas semanas, aqueles que apresentarem melhor desempenho individual e, principalmente, coletivo, são pré-selecionados para um teste contra o time juvenil do Palmeiras. A ajuda de custo para os jogadores do infantil é de R$ 300, subindo gradativamente de valor até chegar aos juniores, que recebem R$ 800, fora alimentação e moradia no alojamento do clube.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando esse texto foi postado, fez jus ao histórico a quem o serviu de fonte. Seu Dorival já colecionava duas mamárias e uma safena. Infartado, bebia a cervejinha de praxe e não tomava os remédios. E brigava. Não tinha uma só vez que não dissesse à Sônia para não se preocupar e que ele iria morrer pelo Palmeiras.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– O dia que ele recebeu esse título aqui, considerou seu dever cumprido – diz Dona Sônia se deslocando até a entrada da cantina e batendo a mão no quadro que ali permanece pendurado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No dia 15 de novembro, Ana Paula completou um ano de casada. O pai não se cabia de tanta felicidade, dava entrevistas de cabeça erguida e preparava-se para assistir uma nova e promissora fase do seu clube do coração. Infelizmente, seu órgão vital não era mais o mesmo. Dias depois, Ana Paula ainda insistiu para que o pai não fosse ao churrasco em Campinas e, sim, na formatura do sobrinho de Dona Sônia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A exemplo da Linha 2, verde também era a hemoglobina que corria pelas veias do português. Ele foi ao evento numa chácara da antiga Princesa D'Oeste e assistiu Flamengo 2 x 1 contra o Palmeiras, pelo Brasileirão. Um torcedor rubro-negro carioca se exaltou, causou confusão, mexeu com os brios do, àquela altura, furioso Seriacopi. O pau quebrou. No final, o grande campeão aquele ano foi o Santos, de Vanderlei Luxemburgo, sobre o Atlético Paranaense. Já o Palmeiras perdeu muito mais que um jogo fora de casa ou um Brasileirão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Talvez fosse diferente se o Verdão tivesse ganhado, talvez fosse diferente se o Seu Dori tivesse ido ao aniversário, talvez fosse diferente se os carros no estacionamento não estivessem fechando uns aos outros num momento de emergência, talvez fosse diferente se no caminho até o hospital mais próximo não ocorressem duas paradas cardíacas no palmeirense da rua Cayowaá. Mas se talvez Seu Dorival conseguisse falar alguma coisa aquele dia, nada seria diferente, pois suas palavras seriam exatamente as mesmas:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Sônia, não se preocupe, eu vou morrer pelo Palmeiras!&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4732245796051481977-5735191108290745963?l=a-cantina.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://a-cantina.blogspot.com/feeds/5735191108290745963/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://a-cantina.blogspot.com/2009/09/ii-antes-de-dormir-na-noite-de-15-de.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4732245796051481977/posts/default/5735191108290745963'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4732245796051481977/posts/default/5735191108290745963'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://a-cantina.blogspot.com/2009/09/ii-antes-de-dormir-na-noite-de-15-de.html' title=''/><author><name>Luciano Bitencourt</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01733890549897470635</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='28' height='32' src='http://bp2.blogger.com/_9d03NFtnhPA/R_UemyLYMFI/AAAAAAAAACA/OjXMN2PhcqU/S220/avatar.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4732245796051481977.post-828702586599747170</id><published>2009-09-20T11:30:00.000-03:00</published><updated>2009-09-20T11:36:43.285-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Capítulo 5 - I'/><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;Os clientes&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;I&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sexta-feira é lei, eles se reúnem na cantina. É uma espécie de culto, ritual, não faltam. E se faltam é porque estão sujeitos a obrigações inadiáveis ou porque é feriado. Não é que abdiquem aos outros dias da semana, obedecem rigorosamente a lei. A falha na sexta significa com certeza o cumprimento da tabela no dia antecessor ou posterior, sábado. São todos &lt;em&gt;habitués&lt;/em&gt; da casa. Entre a maioria deles é perceptível que já se passaram bem mais de 40 carnavais – salvo um ou outro rapaz que os acompanha. Tratam-se por apelidos, quase todos diminutivos ou degenerativos, escolhem com autonomia os seus pedidos ao longo das mais de duas horas que passam a cear na cantina, ocupam mesas privilegiadas e caçoam com total liberdade daquele que lhes é somente atenção.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele não se importa, dá risadas e se alegra, é o seu dia de festa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Miguel, você precisa ir com a gente lá uma hora dessas – disse o senhor de bigode com pelos brancos, erguendo a faca e o garfo nas mãos e abrindo um sorriso de quem apreciava a melhor das massas italianas.&lt;br /&gt;– Eu vou, eu vou – respondia em exacerbada alegria o excitado, mandando às favas a tênue linha divisória entre a condição de companheiro e a obrigação de garçom.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aquela era a trupe de Duda e Jacaré, os amigos de Miguel. A trupe que contava muitas histórias nos almoços. Miguel os atendia com satisfação e respeito, eram de todos os frequentadores com quem ele mais se identificava. Na mesa dos amigos é que pedia-se lasanha, picadinho ou um parmegiana; é lá que lembrava-se os casos de hierarquia do avô e do assento exclusivo; eles que chamavam com liberdade Ana Paula de Paulinha; e foi Jacaré quem tempos depois pediria que todos respeitassem as escolhas de Miguel.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sempre organizavam uma mesa cheia. Traziam os funcionários da empresa e amigos; tinham privilégios no cardápio e eram os responsáveis na maioria das vezes pelos momentos de algazarra na cantina. Faziam singelas reservas de mesas – com a exigência apenas de que não ficassem bem na entrada – e encomendas de refeições, pratos especiais e sobremesas, para as comemorações internas da empresa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era para essa celebração que Miguel entusiasmado se preparava a semana inteira. Sua ansiedade era tão grande que às quintas ele se comportava com extrema irritação, estabelecendo critérios militares para a organização das mesas na cantina. Cliente desobediente entrava no relho. Nesse dia, nem ele próprio se aguentava. Seus altos e baixos seguiam um calendário comum: na segunda-feira estava alegre, animado e vivaz; até quarta-feira ia tudo bem, quando os fornecedores vindos em razão da feira-livre o tiravam do sério; no dia seguinte estava agitado, chato, pré-sexta; e sábado era morno, dia de receber um ou outro cliente da semana.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas sexta-feira era incomparável, parafraseando os adágios mais antigos, era o dia em que Miguel colocava Estricnina na própria água antes de ir para o trabalho. E não apenas seus amigos lucravam com isso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Apesar de Duda ser um dos principais apreciadores da cantina, o local contava com um batalhão de clientes assíduos. Estavam entre eles, os jovens movidos pela oportunidade de comer um prato delicioso, saudável e nutritivo – mesmo que não soubessem diferenciar muito bem isso – e beber uma garrafa de refrigerante por uma média de R$12 a R$15. Clientela cujo perfil pode ser resumido em homens e mulheres de 18 a 25 anos, cabelos inspirados em culturas afro, emo ou simplesmente despenteados, estudantes de artes ou comunicação, estagiários em agências de publicidade e empresas do gênero no departamento de criação ou tecnologia. Chegavam em duplas, trios ou mais pessoas, nunca sozinhos. Sempre pediam para caprichar na batata frita ou para pendurar a conta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Miguel tinha alguns fãs entre o público juvenil. Vivia em desavenças, mas gostava deles. Adorava quando surgia um engraçadinho querendo mostrar intimidade ao chamá-lo pelo nome. Quem sabe o fato de ser sexta-feira, quando Miguel estava em êxtase, também contribuísse para que o clima de festança na mesa de Duda propagasse para as demais e fizesse com que os tais jovens outorgassem a si a liberdade de tratar com o palmeirense de maneira íntima.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Miguel, dá pra fazer um filé a parmegiana caprichado pra dividir pra dois? – buscava com a artimanha dos universitários dobrar o orçamento gastando a metade do valor real com a refeição diária.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aí dessa garotada querer folgar noutros dias. Não ousavam. Além dos bate-pontos, funcionários de uma empresa nas proximidades também frequentam a cantina quase diariamente. São eles, dois homens, às vezes só um, e duas mulheres. Não são casais, não têm profundas intimidades e não falam de coisas grosseiras. Bem, não deve-se levar em consideração que as duas mulheres em outra oportunidade falaram mal de outra mulher da empresa, enquanto pediam as sobremesas. Inclusive, eles sempre pedem sobremesas. As duas mulheres são adeptas ao cardápio equilibrado da cantina, inclusive às receitas um pouco mais “pesadas” que não são exageradas em quantidade. Come-se na medida, de forma moderada e sem desperdiçar para quem está de dieta ou de regime. A própria sobremesa é bem dosada. Os glutões... reclamam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Duas mulheres com mais de 30 anos gostam de aparecer às quartas, elas pedem os pastéis. Homens engravatados também aparecem sempre, além de gente com aparelho Nextel e sacolejo de representante. Tem também a turma do interior, pessoas do entorno de São Paulo e de cidades num raio de 150 quilômetros de distância (por qualquer motivo aparecem às terças); uma senhora de pele e cabelos claros, vestida como executiva, ou secretária-executiva, que nunca está acompanhada; e um homem também sozinho e de pele e cabelos claros, mais de 50 anos e cara inevitavelmente amarrada. Tem ainda o tipo homem descolado, cáucaso, cabeça raspada, óculos com as lentes redondas, calça Opera Rock, tênis Cavallera, cachecol nos dias frios, ar de inteligente, emburrado e às vezes um cavanhaque. São muitos, mas tão semelhantes que é impossível diferenciá-los.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As moças do salão ao lado vão pouco à cantina, a equipe da agência de modelos em frente – do outro lado da rua – quase nunca. Os famosos das fotografias expostas nos painéis afixados nas paredes – como o governador José Serra – também não. Quem procura &lt;em&gt;self-service&lt;/em&gt; ou rodízio dá meia-volta. Corinthianos roxos, pois bem, esses poderiam até não se sentirem à vontade no entanto depois de contratar Ronaldo Fenômeno até os simpatizantes da Fiel almoçam sem contratempos na cantina. Os moradores da região também. E ainda tem os curiosos que entram apesar de não encontrarem qualquer placa, nome ou referência na fachada que possa identificá-la. Isso mesmo, a cantina não tem nome, não tem site, nem logotipo, nenhuma identificação no cardápio, apenas um imperceptível quadro-negro com os &lt;em&gt;pratos do dia&lt;/em&gt; escritos em giz branco pendurado discretamente na entrada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E o brasão da família Seriacopi exposto também já na entrada? Perguntaria o mais contínuo dos clientes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ora, assim como a nova clientela sempre confunde Miguel com o proprietário, não relacionam à primeira vista o brasão com o nome do lugar. Mesmo porque esse não é o nome da cantina e mesmo assim todos os dias novos clientes entram para almoçar, passando o cartão de crédito ou débito e conferindo no recibo a descrição Dok's Bar – que também não é a alcunha do estabelecimento, somente o nome fantasia para efeitos contábeis. Ou alguns antigos como o Duda que toda sexta-feira aprecia seu banquete pessoal (com placa ou sem placa, nome ou não na fachada ou no cardápio).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Miguel, você viu que palhaçada o Marquinhos na terça-feira? Entra para decidir e sai expulso... – comentou o Jacaré.&lt;br /&gt;– Eu falo: não tem mais seriedade no futebol! – apresentou ao colega, ainda de costas porque atendia outros clientes, a sua opinião sobre o incidente no jogo do Palmeiras contra a LDU, pela Taça Libertadores 2009.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4732245796051481977-828702586599747170?l=a-cantina.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://a-cantina.blogspot.com/feeds/828702586599747170/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://a-cantina.blogspot.com/2009/09/os-clientes-i-sexta-feira-e-lei-eles-se.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4732245796051481977/posts/default/828702586599747170'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4732245796051481977/posts/default/828702586599747170'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://a-cantina.blogspot.com/2009/09/os-clientes-i-sexta-feira-e-lei-eles-se.html' title=''/><author><name>Luciano Bitencourt</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01733890549897470635</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='28' height='32' src='http://bp2.blogger.com/_9d03NFtnhPA/R_UemyLYMFI/AAAAAAAAACA/OjXMN2PhcqU/S220/avatar.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4732245796051481977.post-8033590578452466264</id><published>2009-09-20T11:19:00.000-03:00</published><updated>2009-09-20T11:28:07.793-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Capítulo 5 - II'/><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;II&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sexta-feira é o dia dele empapuçar-se com a colônia pós-barba de &lt;em&gt;patchuli&lt;/em&gt;, é nesse dia que nota-se o esmero de Miguel para consigo mesmo, é nesse dia que ele se entrega aos prazeres da barbearia antes de iniciar o término definitivo da semana de trabalho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chega à cantina impecável, unha feita, mocassim reluzente, anel no dedo. Então ele coloca o primeiro jaleco, o especial de se usar no fim de semana, e encaminha o segundo para lavar – na segunda-feira de manhã vai estar limpo, passado e cheirando amaciante – para ser usado outra vez de terça à quinta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vestido de primeiro jaleco, limpo, passado e cheirando amaciante, cabelo com brilhantina penteados para trás, barba feita e bigode acertado, Miguel sai desembestado entre as mesas. O rádio está sintonizado numa emissora de música popular e o ambiente está a fervilhar. Com o rosto a dourar como o filé de frango que está prestes a deixar na mesa de uma garota com os cabelos &lt;em&gt;dreadlocks&lt;/em&gt; vibra e mantém-se de orelha em pé ao diálogo de seus companheiros que inevitavelmente vez por outra ao final de algumas explanações insistem em indagar:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Lembra, Miguel? É verdade ou não é? – Duda e companhia colocam o amigo contra a parede a todo instante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A resposta afirmativa vem de qualquer canto onde ele esteja, pois tornar-se parte integrante na conversa de seus companheiros é motivo de orgulho e regozijo. Sente-se reconhecido. Vê-se admirado por aqueles a quem ele dedicou esforço e atenção. Pode parecer algo contraditório com a crença católica de Miguel – que prega o dar e fazer o bem sem ver a quem e sem esperar receber em troca – mas ele busca um &lt;em&gt;feedback&lt;/em&gt; constante do seu trabalho. Precisa muito disso, é uma aventura particular que carrega.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Além de todas essas características, sinceridade era sua marca registrada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando o designer gráfico Cassiano Tosta, 32, elogiou a lasanha ao molho sugo que acabara de ter a abençoada oportunidade de degustar, Miguel foi enfático ao informar a fonte de tal preciosidade: uma casa de massas na rua Prof. Alfonso Bovero, no bairro da Pompéia. Um lugar onde os proprietários eram de origem italiana e que, segundo ele, vendia a melhor massa da cidade de São Paulo a preços acessíveis e com a maior diversidade de preparos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– O molho é nosso, mas eles também vendem o molho pronto e separado – acrescentou ao designer enquanto era fitado com certa insatisfação por Ana Paula que, atrás do balcão, fazia às vezes de caixa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Também pudera. Certo dia, o designer realmente seguiu a orientação e foi até à casa de massas. Num sábado a noite preparou um jantar a dois regado a vinho chileno de uva merlot e com sua mulher colocou a mão na massa. Recém-chegados às proximidades, eles residem num edifício na mesma rua e experimentaram alguns restaurantes das redondezas antes de montar cozinha no apartamento. Cassiano é econômico, irrita-o pagar mais que R$15,00 em uma simples refeição no almoço, valor que investiu ao pedir o prato de lasanha, sem contar o suco de laranja. Sua mulher, contudo, é mais prática, e almoça na cantina quando está atrasada e sem tempo para preparar algo para comer. Ela gosta da culinária da casa, principalmente o filé de peixe, mas não bebe o café.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já o Cassiano não voltou mais lá – pelo menos para comer massas, não.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Miguel não se importa. Quando tudo está sob controle, sai até à calçada para dar bicadas ao movimento e – com brilhante discrição – as mulheres que trabalham no salão de beleza ao lado, senhoritas que mesmo não sendo suas freguesas fieis ganham a atenção distraída daquele senhor cujo nome está bordado no uniforme de trabalho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma conferida visual mesas adentro atesta a tranquilidade da situação e ainda do lado de fora aproveita o sol para mexer de um lado para o outro o sapato de couro preto que recebera no final de semana anterior uma caprichosa camada de graxa. Se nota um embaço, passa a barra da calça no mocassim e acerta o brilho do calçado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Tudo bem Miguel? – perguntou a senhora de aparentemente 55 anos que entrou com sacolas de compras na mão.&lt;br /&gt;– Tudo, e a turma lá na sua casa? – respondeu demonstrando intimidade ao emendar naturalmente uma pergunta a respeito da família dela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era conhecida na cantina, estava a entregar alguma mercadoria ou encomenda, ou vice-versa. Cenas como essa eram comuns e prosseguiam durante todo o almoço no entra e sai de clientes ou de conhecidos que puxavam conversa por ali.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Ontem à noite tava cheio, viu – disse um homem de calça jeans, camisa de algodão e cabelo tosado ao entrar e pegar o embrulho para o almoço.&lt;br /&gt;– Nossa, foi mesmo? Coitado... – comentou Dona Sônia.&lt;br /&gt;– Sozinho aqui, ele corria para todo lado – emendou o homem enquanto passava o cartão do banco na máquina do Visa Electron.&lt;br /&gt;– E quem eram os fregueses? – mostrou preocupação, Ana Paula.&lt;br /&gt;– Só amigos, só amigos, tranquilo, só gente conhecida – explicou calmamente antes de agradecer e despedir-se de todos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele se referia ao Paulo, irmão de Ana Paula e responsável pela abertura da casa após às 18h quando a cantina dá lugar um bar e se transforma numa verdadeira arquibancada do Palestra Itália. Nesse turno Miguel não está presente, entra o churrasqueiro Careca, e vende-se não só cerveja como todo tipo de bebida alcoólica e petiscos. Uma televisão é colocada no topo da geladeira que tem a bandeira de Portugal e jogos dos campeonatos em que o Palmeiras participa são compartilhados entre torcedores, amigos e outras pessoas. De manhã é possível ver a caneca do festival do chope promovido pela Mancha Verde escondida entre troféus, taças e flâmulas dos campeões do Brasileirão da Série B de 2002 e 2004, Juventus e Criciúma, respectivamente, além de uma do Boca Juniors. Visível no almoço, pertence ao turno da noite.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De manhã também falava-se sobre muitas coisas, mas o Palmeiras era sem dúvida motivo maior das manifestações de Miguel. Uma vez vitorioso após um confronto, elogiava as boas jogadas, reclamava do técnico em questão, o Luxemburgo, e chorava as oportunidades perdidas. Se o resultado fosse negativo não se ouvia paparicos, oxalá menção ao jogador mais guerreiro da partida mas em geral era crítica ferrenha para todos os lados sobrando sempre, é claro, para o juiz e auxiliares.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aos empates com grandes clubes Miguel dava pouco crédito tanto a não elogiar, nem criticar, passava-se despercebido. Mas com clubes pequenos era imperdoável como na noite de terça-feira, 31 de março, em que a partida com o Oeste, lá no Estádio Ideonor Picardi Semeghini, em Itápolis, terminou em 1 x 1 e quase comprometeu a liderança no Paulistão 2009. Mas a vitória, no domingo seguinte, de 2 x 1 sobre o Botafogo, de Ribeirão Preto, dentro do Palestra consagrou os 44 pontos que garantiu ao Verdão de Miguel a cabeça da tabela antes de ingressar na semi-final e ser eliminado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Terminou cinco pontos a frente da gente, mas perdeu as duas para o Santos enquanto papamos o São Paulo nos dois jogos. Agora nós vamos sapecar o peixe lá na Vila este domingo e ser campeão no Pacaembu, no outro – falou com escárnio profético o cliente corintiano sentado com mais dois homens.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Miguel ouviu o comentário lastimável, soltou um tímido “é” e continuou a pulular de mesa em mesa. Não discordou, nesses casos não discordava. Além do mais era sexta-feira, estava feliz, na maior inteiração com Duda e Jacaré, e sabia não haver nada de mais em levar ao pé da letra em certas ocasiões aquela máxima de que o cliente tem sempre razão. Foi atender a senhora, com mais de 50 anos, mãe de três filhos, moradora da região e que frequenta o local desde a abertura em 1980.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No outro dia, sábado, um homem com menos de 40 anos almoçava com dois garotos: o filho e o amigo do colégio. Ambos voltavam da escolinha de futebol do Palmeiras. Miguel atendia-os com toda a atenção. O garoto amigo era um craque, uma promessa. Franzino, tinha a canela fina, os olhos arregalados e comia arroz, feijão, bife e fritas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Miguel olhava-o diferente, parava por alguns instantes e ficava só observando-o; nas pupilas do português via-se um filme, fazia trabalho de vidente enxergando o futuro dentro de uma bola de capotão; a visão que prenunciava era a de um molecote, com a canela fina e os olhos arregalados, fazendo um espetacular gol de bicicleta para o Palmeiras na decisão final do Brasileirão de 2018, e dentro do Palestra Itália.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com a casa lotada e contra o Corínthians, é claro. &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4732245796051481977-8033590578452466264?l=a-cantina.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://a-cantina.blogspot.com/feeds/8033590578452466264/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://a-cantina.blogspot.com/2009/09/ii-sexta-feira-e-o-dia-dele-empapucar.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4732245796051481977/posts/default/8033590578452466264'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4732245796051481977/posts/default/8033590578452466264'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://a-cantina.blogspot.com/2009/09/ii-sexta-feira-e-o-dia-dele-empapucar.html' title=''/><author><name>Luciano Bitencourt</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01733890549897470635</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='28' height='32' src='http://bp2.blogger.com/_9d03NFtnhPA/R_UemyLYMFI/AAAAAAAAACA/OjXMN2PhcqU/S220/avatar.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4732245796051481977.post-2613840812738494441</id><published>2009-09-20T10:58:00.000-03:00</published><updated>2009-09-20T11:07:20.551-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Capítulo 6 - I'/><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;O Novato&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;I&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um dia Miguel estava cabisbaixo. Não era resfriado, tampouco noite mal-dormida. O Palmeiras estava razoavelmente bem, melhor ainda a política nacional da qual ele nunca reclamou ou fez alarde. Atendia todos com a mesma atenção, apesar de emitir um sorriso frio, triste e sem graça. Mexia-se pouco, não falava mais o pedido em voz alta e, para isso, deslocava-se até a cozinha para anunciá-lo. Não havia nenhum de seus amigos entre os clientes na cantina e suas reações alteraram-se quando um homem cheirando a álcool quis almoçar e beber uma cerveja.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Não vendemos bebidas alcoólicas no almoço – enfatizou, orientando-o a procurar outros lugares nas proximidades.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enquanto tomava o solzinho na calçada não fitou as morenas do salão de beleza ao lado, permaneceu com o olhar melancólico e distante, parecia sentir uma angústia enorme.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há alguns dias Miguel já manifestava certa nostalgia, comentou a respeito da mudança de vida que preparava, falou em estar mais perto da família. Tinha planos. Olhou para a fotografia do amigo Dorival Seriacopi sorrindo, com os braços abertos e vestindo a camisa do Palmeiras, pendurada no balcão de madeira, e sentiu além de uma fraterna lembrança um enorme calafrio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Sr. Dori morreu no dia 28 de novembro de 2004, aos 63 anos, depois de trocar socos com um flamenguista abusado, durante um churrasco em Campinas, no interior de São Paulo. Era domingo, jogo do Campeonato Brasileiro e de uma simples discussão chegaram-se às vias de fato. O coração dele não resistiu. Seriacopi trabalhou até os últimos momentos na cantina, lutou até o último minuto pelo Palmeiras e brigou o quanto pode contra os seus próprios sentimentos – não se medicava corretamente, nem aceitava o quanto era importante tratar os nervos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Miguel tinha duas escolhas: seguir – guardadas as devidas proporções – o mesmo caminho ou então jogar a toalha e pensar numa aposentadoria apática como qualquer outra. Resistir só o deixaria mais próximo daquilo que é a única certeza de que todos nós temos na vida. Não que ele não gostasse dos netos, por quem é apaixonado, mas sabia que trocar a cantina pelos passeios com as crianças na calçada e nas praças implicava em deixar para trás toda uma história de benfazejos ao futebol, à gula e aos amigos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Naquele certo momento, Miguel não tinha ninguém ao seu lado. O seu exército dera baixa. Mesmo vitorioso foi difícil aceitar a realidade nua e crua que tornava-se tão clara pela primeira vez em toda sua existência: a guerra acabou. Era hora de partir para a casa, abraçar a mulher, rever os filhos, cuidar dos netos, ir à padaria sem compromisso de horário e, o mais importante, ser atendido por outrem. A volta para a casa depois da guerra, porém, muitas vezes é marcada por um lar transformado, completamente diferente daquele quadro desenhado na memória, isso quando ainda existe um lar. Miguel deu sorte: o dever cumprido e a família estão em ordem. Sua família, aliás, também deu sorte. Depois da guerra, muitas vezes não ocorre a volta para a casa. Miguel está triste, mas está inteiro, é uma questão de tempo para se recompor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nada mais natural, diriam os melhores especialistas – tudo bem, um clínico geral palmeirense, como obviamente optaria o teimoso Miguel –, para quem labutou durante décadas no &lt;em&gt;front&lt;/em&gt; de combate.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao concentrar o olhar para o chão ele imaginou que no momento em que pendurar o mocassim, estará calçando definitivamente as suas sandálias franciscanas de couro. Sabia que dali há poucos dias iria se despregar, em prática, de suas histórias de quando tinha apenas 11 anos e acordava todos os dias às 3h da madrugada para trabalhar na padaria do pai. Estava prestes a deixar para trás anos e anos como o ex-taxista que mais se destacava na praça no meticuloso cuidado com seu automóvel. Sabia que dali há poucos dias iria olhar de uma forma diferente para a segunda maior cidade do mundo em número de restaurantes. A São Paulo de 1.500 pizzarias e seu 1 milhão de pizzas diário, ou 720 por minuto; ou então, a metrópole das 3.200 padarias e seus 10,4 milhões de pãezinhos por dia, ou 7.200 unidades a cada 60 segundos. Não bastasse, como aposentado, vai usufruir com parcimônia dos mais de dois mil &lt;em&gt;deliveries&lt;/em&gt; existentes à sua disposição e encomendar por telefone desde &lt;em&gt;burritos&lt;/em&gt; à &lt;em&gt;yakisobas&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É que o comportamento de Miguel indicava uma futura reclusão. Um sumiço sorrateiro que inspiraria todo tipo de dedução, entre as quais a de que estaria atuando como zelador do edifício onde reside. Adiante, informações desencontradas haveriam de surgir a respeito do seu paradeiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Antes disso, quando um novo cliente perguntou se era ele o dono da cantina, Miguel respondeu que não, apontou para uma foto na parede com a imagem de um homem com mais de 30 anos – o ex-marido de Ana Paula – abraçado à celebridades como Ronaldinho Gaúcho, e explicou mais uma vez a história do lugar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No entanto, dessa vez, ele discorreu penoso sobre o assunto alegando que aquelas fotos – a exemplo de uma com o jornalista Maurício Kubrusly – eram coisa do passado, de quando o fundador da cantina era uma pessoa influente no clube paulista e que, depois de sua morte, todos aqueles famosos que lá o prestigiavam agora não frequentavam mais a casa como antigamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Disse tudo isso nervoso, reclamando e resmungando em retirada. Em plena sexta-feira. Uma sexta-feira, porém, diferente. Um dia em que Miguel não tocou mais como antes em assuntos sobre os treinos do Palmeiras, dos quais deve ter perdido também inúmeros privilégios. Outro dia, outro cosmo. Nem quinta-feira assistiu semelhante ingresia. A areia escorria entre os seus dedos e sua insurreição, uma vez que era um bravo por nascença, não foi capaz de vencer a força inexorável e impiedosa do tempo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esse mesmo tempo que presenteou-lhe com rugas, uma leve corcunda e com perdas irreparáveis entre as quais a do seu universo. E a tão desejada vitalidade era agora quem o obrigava a refletir sobre o espaço. Um espaço que não era mais o seu. Nesses últimos dias, Miguel estava um pouco confuso. Um freguês pediu contra-filé com salada, ele trouxe filé de frango com fritas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Pedimos limonada, o senhor disse que acabou e que só tinha suco de laranja. Esse pessoal da mesa aqui do lado acabou de chegar, pediu limonada e já foi servido. E a gente nem viu o suco de laranja ainda! Afinal tem limonada ou não? – reclamou outro casal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um homem e duas mulheres que esperavam ser atendidos preferiram, diante da demora, atravessar a rua e entrar no restaurante de espetinhos de carne em frente à cantina.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A casa estava um pouco mais vazia do que o costume e quem chegou para almoçar depois das 14h30, ou seja, faltando meia-hora para o encerramento do expediente matutino, viu um Miguel ainda mais arreado e desta vez de uma forma como nunca ele havia se exposto antes: sentado sozinho na mesa dos fundos alimentando-se de cabeça baixa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando um freguês habitual entrou desculpando-se pelo horário e perguntando se ainda havia tempo para almoçar notou aquela cena exclusiva, cumprimentou Miguel – que o respondeu somente com um levantar de olhos e balançar de cabeça tímidos – e percebeu algo estranho no ar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era tamanha a tristeza que, por coincidência ou não, o aparelho de som não estava sintonizado numa rádio de música pop ou sertaneja: tocou uma coletânea inteira com o lado mais romântico de Vanessa Da Mata. Ele não dava caras de ser fã da extravagante morena. Por outro lado, independente do estilo que saísse daquelas caixas de som naquele instante, não haveria a mínima condição de assimilá-los. Nem mesmo o Roberto Carlos dos seus bons tempos conseguiria retirá-lo do transe na qual permanecia submerso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era bem próximo do que acontece dentro dos frigoríficos com os animais – bois, no caso – que estão prestes a serem abatidos. Tudo começa na fazenda, com a identificação dos melhores exemplares para a engorda que, desde cedo, são encaminhados para os pastos mais fartos de capim. Ao alcançarem idade e peso ideais para a indústria, próximo aos 3 anos e às 18 arrobas em média, são colocados em duas dezenas num caminhão cuja carroceria é uma espécie de gaiola. Assim que o veículo se aproxima do abatedouro, o cheiro da fumaça – muito semelhante ao do curtume – atiça os animais e então tem início um coral de berros e urros (ou sussurros) que toma conta de toda a área externa do frigorífico – local onde ainda se encontram vivos os bois. Numa baia, curral, ou piquete, geralmente cimentado, cercado com arame e barras de metal, os animais passam por quarentena tendo em vista a dieta necessária pré-abate e o atendimento às regras sanitárias. Dali em diante, um corredor de aproximadamente 200 metros os separam das últimas ruminações. Quando pegam esse caminho chegam até o brete – armadilha que prende o animal – que já está localizado no interior do frigorífico. Lá, imobilizados, um algoz vestindo botas, roupa e chapéu brancos aponta uma pistola prateada (presa por um cabo que a liga num cilindro de ar comprimido) no chanfro do animal e então dispara um único tiro: seco e preciso. Nem mal ecoa o estampido, lá está uma carcaça a ser suspensa por outro homem igualmente todo de branco que a dependura auxiliado por cabos e correntes num gancho. Suspensa, corre por tirolesa até chegar às mãos de outros homens (os magarefes) também de branco que ostentam enormes e afiadas facas de diversos tipos e tamanhos. São instrumentos que oscilam entre a pele, a carne e os ossos dos animais, depois que riscam a lima que aprimora o gume para a carnificina. Mas antes de serem retalhados e de se transformarem em peças, no momento em que se encontram no corredor, antes de chegarem ao brete, os animais invariavelmente soltam o último berro, aquele som angustiante e derradeiro, o último soluço. Apesar da agressividade de uma cena usual dentro dos abatedouros, é nos instantes anteriores ao sacrifício que se presencia o momento mais triste desses animais cuja vida é uma contagem regressiva pontual desde o nascimento até o instante em que chegam ao prato do consumidor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esse era o momento de Miguel. Apresentava-se na condição pré-abate, pronto para encerrar sua trajetória de cumprimentos, sugestões, opiniões e, é óbvio, do tradicional berro para a cozinha. Pela primeira vez, ele virava-se de costas por tão longo tempo para os fornos, freezers e fogões. Comia bife com ovo, fritas, arroz e feijão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era sexta-feira, estrogonofe de carne o &lt;em&gt;prato do dia&lt;/em&gt;. Ao levantar-se e despedir-se dos presentes o freguês retardatário sentiu-se quase certo de que não veria mais o sugestivo garçom. Sábado a cantina não abriu. E não abriria mais nos sábados seguintes, nem aos feriados. Fechada, o grafite de um rosto feminino no melhor &lt;em&gt;street art&lt;/em&gt; característico da região ilustrava a porta de aço galvanizado na fachada. &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4732245796051481977-2613840812738494441?l=a-cantina.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://a-cantina.blogspot.com/feeds/2613840812738494441/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://a-cantina.blogspot.com/2009/09/o-novato-i-um-dia-miguel-estava.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4732245796051481977/posts/default/2613840812738494441'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4732245796051481977/posts/default/2613840812738494441'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://a-cantina.blogspot.com/2009/09/o-novato-i-um-dia-miguel-estava.html' title=''/><author><name>Luciano Bitencourt</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01733890549897470635</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='28' height='32' src='http://bp2.blogger.com/_9d03NFtnhPA/R_UemyLYMFI/AAAAAAAAACA/OjXMN2PhcqU/S220/avatar.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4732245796051481977.post-7636197344668754119</id><published>2009-09-20T10:39:00.000-03:00</published><updated>2009-09-20T10:55:20.696-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Capítulo 6 - II'/><title type='text'></title><content type='html'>II&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Após algum tempo, de forma curiosa, os antigos clientes retornaram e a casa estava cheia de novos degustadores. Até o designer Tosta voltou com frequência para comer massas – nhoque recheado com queijo e bife na chapa (ou escalopes, nos restaurantes chiques). Após as refeições, a mulher dele agora toma dois copos de café. Nos dias que se seguiram ouviu-se os &lt;em&gt;habitués&lt;/em&gt; interrogarem por notícias de Miguel. A resposta era sempre a de que ele estava bem, no lar, mas fora de contato. Especulou-se que ele havia tirado férias e com o passar dos dias de que estava trabalhando em outro restaurante.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Palavras afáveis de Miguel aos seus amigos frequentadores da casa sempre eram transmitidas através de Ana Paula ou Dona Sônia. Havia a afirmação do próprio, segundo elas, de que uma visita à cantina seria realizada em breve. A data seria o dia 08 de maio, uma sexta-feira, quando ele iria encontrar-se com os amigos para comemorar o seu aniversário.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;– Disse que virá se despedir e matar as saudades – enfatizou sorridente e com a simpatia de sempre a mulher que, antes atrás do balcão, agora pulara para a frente das mesas também no auxílio ao novo garçom que ela trata delicadamente por Lú.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Apesar da expectativa, ele não foi. Miguel não apareceu. Mas Duda, o melhor amigo de Miguel, estava lá com sua turma. Compraram até bolo de confeitaria. Fizeram a tradicional algazarra, alguém sugeriu ligar para Miguel e Jacaré interveio.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;– Não. Ele tem as suas razões. Vamos respeitá-lo – ponderou seriamente sem deixar brechas para comentários.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Todos ficaram quietos por alguns segundos. O barulho dissipou-se. Devem ter refletido algo sobre o colega ausente enquanto comiam. Logo alguém lançou um assunto sobre a Parada Gay, que seria realizada no mês seguinte e que atrairia 3,5 milhões de pessoas para avenida Paulista e locais adjacentes. Então, outro lembrou o show de um transformista conhecido, brotaram troças e voltaram a festar. Sobrou para o novo garçom, que não entendeu a piada.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;O rapaz, por sua vez, não é palmeirense, nem faz as unhas com profissionais, é adepto ao halterofilismo. Futebol não foi um fator decisivo para a sua contratação, pois o novato torce para o Corínthians. Além disso, ele já foi pintor de paredes, trabalhou para um ex-goleiro do São Paulo Futebol Clube que atualmente passa por maus momentos financeiros e que teve que pintar a residência antes de entregar as chaves para a imobiliária.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;– Lú, leva essa caixa lá para os fundos, por favor – disse Ana Paula apontando para a encomenda e mostrando-se muito mais feliz com a estrutura, cardápio, clientes e história que ela possui hoje do que com a centena de refeições e litros de cachaça vendidos em épocas como a da construção da estação Vila Madalena do Metrô.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A filha do Seu Dori e de Dona Sônia entende que a clientela muda bastante e está sujeita à sazonalidades, é despretensiosa em não aceitar o &lt;em&gt;know-how&lt;/em&gt; que possui nas mãos quando a cantina está prestes a completar 30 anos, mas enxerga o quanto vai enriquecer a tradição culinária da sua família ao prestar vestibular para o curso de Nutrição. É que nesse momento, Ana Paula estará se preparando para confrontar a construção de outra grande obra de acordo com a Época Negócios:&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;O novo shopping será construído em um terreno de 3.800 metros quadrados próximo à estação de metrô Vila Madalena, na esquina da av. Heitor Penteado com rua Marinho Falcão. Deve ter cinco pavimentos e três subsolos, somando 23 mil metros quadrados de área construída. O projeto prevê uma praça cultural e ações sustentáveis para reuso de água e utilização de iluminação natural.&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Assim como Miguel, Lú também vive de intervalos na cantina, contudo, deve estar presente durante a construção do &lt;em&gt;shopping center&lt;/em&gt;. Apesar de não se identificar em nada com o antigo mercadinho do Seu Dori, curiosamente, o novo garçom despertou mais interesse agora nos clientes pela história do lugar do que o próprio Miguel. Não demorou muito para que a casa voltasse a conviver com a lotação máxima, com gente ficando de fora e outros esperando um &lt;em&gt;santocristo&lt;/em&gt; saciar-se e ir embora. As mulheres até se atrevem a sentar ao sol para que o novato, assim que liberar uma mesa em outro ponto, possa conduzi-las gentilmente ao lugar mais adequado da cantina. Agora, fazem até questão que o garçom escolha o lugar.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;O fato é que naquela manhã de segunda-feira todos os fregueses que chegavam à cantina notavam a ausência de Lú.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;– Dor de dente, o ciso inflamado – informou Ana Paula.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Na manhã seguinte lá estava ele novamente atendendo, carregando engradados para o depósito no segundo andar, subindo e descendo com exubera disposição a escada na lateral externa da cantina.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Um músico de jazz o apelidou mais tarde de Massaranduba. Lú nunca demonstrou melancolia, nem comentou sobre suas convicções pessoais. Não usa mocassim e não está prestes a se aposentar. Mas um dia ou outro vai decidir também apostar em outro rumo. Hoje, veste calça jeans, tênis &lt;em&gt;New Balance&lt;/em&gt;, boné, avental de algodão e camiseta cinza.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;E no seu peito, num reforço descomunal de publicidade, lê-se impresso em tinta branca: Adidas.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;strong&gt;FIM&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4732245796051481977-7636197344668754119?l=a-cantina.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://a-cantina.blogspot.com/feeds/7636197344668754119/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://a-cantina.blogspot.com/2009/09/ii-apos-algum-tempo-de-forma-curiosa-os.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4732245796051481977/posts/default/7636197344668754119'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4732245796051481977/posts/default/7636197344668754119'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://a-cantina.blogspot.com/2009/09/ii-apos-algum-tempo-de-forma-curiosa-os.html' title=''/><author><name>Luciano Bitencourt</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01733890549897470635</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='28' height='32' src='http://bp2.blogger.com/_9d03NFtnhPA/R_UemyLYMFI/AAAAAAAAACA/OjXMN2PhcqU/S220/avatar.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry></feed>
